Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 12/08/1970.

A combinação futebol-loteria é decididamente explosiva. Não se fala em outra coisa. Aqui em casa fazemos o nosso jogo na quarta-feira e somos milionários até domingo à noite. 

Entre as minhas intenções e planos, para quando a sorte estiver confirmada, figura em primeiro lugar a compra de um novo par de sapatos, e em segundo um giro pelo mundo. Antes do embarque, convoco a imprensa para um encontro no Galeão. E declaro solenemente: “Outrora, pobre, amava-o; hoje, podre de rico, deixo-o”.

Dona Carmela, aquela que embolsou quase dois bilhões, talvez ignore o perigo que correu. No dia da apuração, ao pé do computador da Datamec, uns 50 apostadores esperavam o resultado. Eram pessoas que tinham marcado 12 pontos. Já se abraçavam e já combinavam comemorar juntos o grande acontecimento. Foi quando o computador cuspiu a inacreditável ficha dos 13 pontos. Os 50 desiludidos correram os olhos pelo recinto, dispostos a castigar fisicamente o proprietário do comprovante. Felizmente dona Carmela não estava lá, e eu lhe digo, leitor, que se você tiver 13 pontos na mão, o melhor a fazer é deixar passar a indignação popular.

O carioca e a tecnologia estão de namoro. Há muita gente estudando o comportamento dos computadores eletrônicos, na suposição de que deve haver um pequeno truque, uma predisposição a cometer um pequeno erro, um erro imperceptível... Mas o cérebro eletrônico sai sempre vencedor. É infalível. Prova: se você preenche todos os quadradinhos, pagando um bilhão pela aposta e deixando apenas um quadradinho intocado, 50 por cento de suas chances de vitória ficam à mercê desse quadradinho... Não sei se o cálculo é correto, só sei que um sujeito entendido em matemática me garantiu que é assim.

No Leblon, o poeta Paulo criou um consórcio. 20 amigos se reúnem na terça-feira. Cada um entra com 20 contos. Cada semana são destacados dois elementos, sendo que um sabe tudo sobre futebol e o outro não sabe nada; esses dois jogarão pelos 20. Os cartões serão perfurados pelo Chico, garçom do restaurante Degrau.

Descrevo o que se passa na Zona Sul. Mas o caráter explosivo da loteria esportiva só se pode evidenciar se imaginarmos o que se passa na cabeça de um carioca muito pobre. Esse homem tem nas mãos dois contos — o dinheiro da condução. Quando entra na fila da loteria, sabe que provavelmente terá que voltar a pé para casa, amanhã ou depois, por não ter resistido à tentação. Mas como poderia ele resistir, se por dois contos lhe prometem nada menos que um bilhão, uma quantidade fabulosa de dinheiro?

Quando esse homem perde, são toneladas de esperança que se desfazem. Talvez ele sinta um pouco de inveja de dona Carmela. Mas dona Carmela não é rica e pretende garantir o futuro de filhos e netos, o que é justo. Porém me digam: como se sentirá esse homem, o Cidadão Dois Contos, quando a bolada for parar nas mãos do milionário paulista que arriscou 300 milhões no jogo?

Daqui a quatro ou cinco meses, quando estivermos no paroxismo lotérico, esse problema se manifestará no noticiário policial. Os dois Brasis, o dos ricos e o dos pobres, ficarão face a face…

Eis porque já avisei lá em casa: “Vou ganhar antes da fase paroxística”. Isto é: domingo que vem...

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.