Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 83-84

Banho de mar no Recife era "banho salgado" e só se tomava com ordem médica, das cinco às sete da manhã. Antes do sol.

As roupas de banho das mulheres começavam numa touca, seguindo-se um casaco-sunga escuro (com aplicações róseas ou azuis) até os joelhos e sapatos de borracha.

Não devia confessar, mas sou do tempo do "banho salgado". Acordávamos com a noite fechada, entrávamos em nossas roupas de banho e partíamos, de carro, para a Boa Viagem. Em jejum. Ai de quem tomasse café e caísse no mar. Contavam-se casos de pessoas que envesgaram ou ficaram com a boca torta. Tinha que ser em jejum como o da comunhão. Nem água.

A família só descia do automóvel depois que o chofer, pessoa de confiança, fizesse um reconhecimento da área e garantisse que não havia ninguém (homem), ali perto.

Na praia, a pessoa mais velha mandava que todos fizessem o "pelo sinal" e tirava uma ave-maria, a que todos respondiam, encomendando a alma a Deus, no caso de afogamento ou congestão.

− Botaram algodão nos ouvidos?

− Botamos.

Davam-se as mãos, moços e crianças, entravam no mar, até a cintura.

− Um, dois, três... e já!

E mergulhavam, agoniados, de mãos dadas, olhos, ouvidos, boca e nariz tapados.

Essas minhas lembranças vêm de 1928. Apenas, 33 anos. Mas, o mar era uma novidade. Um desconhecido. Fazia-se cerimônia com ele. Tinha-se medo dele. O mar de 1928 era ainda o mar de Castro Alves. Soleníssimo: "Estamos em pleno mar"! Fazia medo. O mar de hoje é o de Caymmi. Abrandou. Tornou-se íntimo. Ninguém respeita.

"É doce morrer no mar. / Nas ondas verdes do mar..."

Daquele mar do Recife, ficou uma lembrança: o cheiro dos sargaços. A quem os teve, sargaços na infância, por mais que ande, por mais feliz que esteja, faltará sempre alguma coisa.

antonio-maria