16 jul 1957

Previsão à maneira Prévert

 
Fonte: O jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Saga, 1968, pp. 63-65

Sua casa deve ser pequena, não mais que um quarto e uma sala. Teria ainda uma cozinha, um banheiro e um terracinho ao fundo, com o lavador de roupa. Quanto aos móveis, os da sala seriam: um sofá, duas poltronas, uma mesinha baixa de centro e outra, desmontável, dessas que ficam pela metade e são encostadas na parede. Sobre esta mesa, um jarro de flores e um retrato de parente: uma mesa para almoçar e jantar, se fosse coisa que viesse gente de fora. Na mesinha baixa de centro, dois cinzeiros, com o nome de uma boate. Sobre o assoalho, sem tomá-lo todo, um tapete branco de cordão grosso. Haveria ainda uma vitrola portátil e os discos estariam na cadeira ao lado. Nas paredes, duas ou três reproduções (uma de Gauguin) e mais um quadrinho pequeno, de pintor nacional. Agora, por exemplo, se são duas da tarde, a moça estaria tomando uma xícara de café, em cima de um guardanapo de matéria plástica, ocupando só uma ponta da mesa encostada, tendo apenas afastado o retrato do parente. Mexeria o café no fundo da xícara. As flores ficariam onde estavam. Bebe sem olhar para a xícara; ou estaria olhando uma pequenina mancha da parede e ficará olhando um tempo enorme para esse ponto sem importância, porque só se pode olhar demoradamente para o que não tem importância ou beleza ou poder. Estaria vestida como dormiu, porque mora sozinha e gosta de ficar nesse deus-dará, até que lhe chegue coragem de tomar banho, vestir-se etc. Ontem, mais um homem lhe disse que a amava e confessou que tinha mandado as tais rosas. Lembra-se de que sorriu, agradeceu, sorriu, agradeceu de novo, disse que as rosas estavam lindas mas não passou disso, durante o agradecimento. Os homens se acham formidáveis. Aliás, as rosas, três estavam no jarro da mesa, uma no banheiro (num copo) e as restantes (oito) dera à mulher do zelador. Numa casa de quarto e sala, não pode haver mais que quatro ou cinco rosas. Passou disso, já fica fúnebre, já lembra enterro. Minha infância (pensa) está cheia de enterros... e de flores. Quanto ao dia de hoje, tinha que ir à cidade, pagar o aluguel (aproveitaria para buscar o relógio no conserto) e voltaria com tempo de ir ao cabeleireiro. Mas já avançou duzentos no dinheiro do aluguel. Não é caro este apartamento (pensa), por 4.500 cruzeiros, com telefone e móveis. Não vale a pena vestir-se por causa do relógio. O homem da joalheria (pensa) vai outra vez pegar-me a mão (diz baixo) com a sua mão suada. Nisso, o telefone toca. O telefone é no quarto, na mesinha de cabeceira. E ela resiste aos três primeiros trinados. A quarta chamada já lhe dá nos nervos. Levanta, anda, senta na cama, tira o fone do gancho e diz o número automaticamente. Do outro lado da linha, silêncio. Há uns dez dias que isto se repete. Ela diz o primeiro "alô" brando; sobe o tom no segundo; o terceiro é um pouco irritado, e o quarto, de paciência contida, grave, arrastado, alôôôôôô... Aí, pergunta se a pessoa não tem nada o que fazer e desliga. Seria, provavelmente, o homem das rosas. Mas, admitindo a possibilidade de ser o de quem ela gosta, ou gostou (pensa), gosta, vá lá, foi que disse os quatro "alôs", em tonalidades diferentes, sendo o primeiro brando e o quarto enervado. Ou, talvez, suplicante. Sobe os pés na cama e encosta a cabeça no espaldar. Depois, abraça-se aos joelhos e acha engraçado ter ficado, de repente, uma pessoa muito menor. Sente que emagreceu um pouco. Onde devia, não. Lamenta ser uma mulher que não fuma, porque um cigarro lhe daria um ar melhor. Defronte, na penteadeira, um aviso de banco e uma conta de luz e gás. O vidro de perfume, nas últimas. Existir é difícil. Matar-se ou prosperar. No chão, revistas, quase todas com fotografias de Teresinha Morango. Noutra, várias poses de Colette Marchand. A angústia e a inutilidade dos tímidos. Gostaria de ser beijada silenciosamente na fronte. Gostaria de entender o seu misticismo. Gostaria de ter um amigo íntimo. Gostaria de ter a vida menos minha (diz e pensa), não sei intimidade nenhuma. Lembra-se de um certo cidadão que a ama, ou a amou. Se ele entrasse, ela fecharia os olhos. Se ele a beijasse na fronte, ela seria grata. Mas não lhe passaria o braço pela nuca. Que horas seriam no mundo? Cinco, seis, sete? Que notícias estariam fazendo sucesso? O certo é não fazer notícias. E pensa: um gesto materno me faria bem. Novamente, o telefone. Novamente, o silêncio do outro lado da linha. Agora o coitado respirou fundo, quase suspirando, sem causar a menor emoção. E pensa que devia ser casada, leviana, trivial, eficiente, fecunda, morna, solene e gorda. Todavia, agora, mais que tudo, queria ser beijada silenciosamente na fronte. O sal do sono arde em seus olhos. Matar-se ou prosperar: A mão do sono passa de leve sobre o seu ventre. Todas as pessoas se distanciam e agora nenhuma é mais amada ou mais desimportante. Todas são distantes e sem som. Nenhuma tem relevos fisionômicos especiais. Ninguém é feio e ninguém é bonito. Todos são perdoáveis. Ninguém precisa ser motivo de outra causa, que não seja o silêncio.

antonio-maria