Nascida a 25 de março de 1892, há cem anos, em Grodno, Rússia, Helena Antipoff veio para o Brasil em 1929. Morreu em 1974, aos 82 anos. Aluna de Bergson, de Pierre Janet, de Alfred Binet, em Paris, depois assistente em Genebra de Edouard Claparède, veio passar dois anos no Brasil e nunca mais voltou. Sua vida é um largo trecho da nossa história da educação. Subdotados e superdotados, crianças excepcionais, meninos de todo gênero: sua obsessão.

Eu ia pelos onze anos quando a vi pela primeira vez. Em que rua, em que bairro, onde morava em Belo Horizonte? Revejo o grupo em que me encontro. Estamos numa sala e madame Antipoff vai entrar. Ela ainda não era mineira e familiarmente a dona Helena. Tarde fria. Eu vinha de São João del Rei e de uma noite mal dormida, com asma. Nosso infantil temor reverencial acentuava o silêncio da expectativa.

Não havia na sala assento para todos. Dona Helena jogou uma almofada no chão e ali me sentei. De que é que se falou? Emissária de outro mundo, guardo o eco de seu sotaque peculiar. Sua voz delicada, seus vivazes olhos. Seu delicado à vontade no falar com todos e com cada um. A gente se sentia gente, não dissolvida anônima no grupo, mas cada qual como cada qual. De tensa, a atmosfera num segundo passou a confortável. 

À mesa, na hora do chá, destramelei a língua. A aureolada senhora, a pedagoga, a professora das professoras sabia ouvir. De que falava aquele menino meio insone no sufoco ciclotímico da infância? Dona Helena parecia curiosa, na sua suave circunspecção. Súbito, ouço hoje, inopinado, o meu próprio silêncio. Terei falado além de suas perguntas? Calei e ela passou adiante. Mas o foco de seu afável interesse continuava a me aquecer.

Espigada, seca, ascética, perseguida por uma dor de cabeça que nunca a deixou um só instante, vim a reencontrá-la anos depois. Sem jamais ter planejado nada, como ela própria disse, seu destino estava, definitivo, no Brasil. Seu reformador pioneirismo. Aquele empenho sério, aquela inteira doação de si mesma, assustava um pouco. Mas sabíamos o que ela era, o que valia. Na fazenda do Rosário em Minas ou na Sociedade Pestalozzi no Rio, onde estivesse, estava a paz da vida plena. O exemplo posto na ação generosa. Apostolar.

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