Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende.

 

Deve ser coisa de americano, a geriatria. Até a palavra cheira a laboratório. A mesma raiz está em gerontocracia, governo dos velhos. A gerocomia ficava pelos hábitos de higiene. Pensar, sempre se pensou. A perspectiva vai de um extremo a outro. Dou de barato que na simples exaltação se esconde uma ponte de horror. A sabedoria e tal e coisa, como está no Cícero. Mas senectus, morbus. É doença.

Será? Leia Italo Svevo, “Senilidade”. Compreensível, essa obsessão, dada a onipresente promoção da juventude. Palavras e metáforas evitam encarar a realidade. Idoso. Terceira idade. A quarta qual será? Universal, não livra a cara de ninguém. Não pede certidão de nascimento. Não quer saber se está verde, ou maduro. Soou a hora, ninguém escapa. Justiça se lhe faça, a Indesejada é democrática. Nenhuma exceção.

Por antinomia, os valores jovens, obsessivos, tiram do armário o esqueleto. O assustador fantasma. A mocinha, mal soprou 20 velas, já está interrogando o espelho. Mente duas vezes, o espelho. Mente por dentro e por fora. Responde o que você quer ouvir. Você pergunta e responde. Melhor prevenir do que remediar. Aí aparece a pré-geriatria. Não espere. Insidiosa, evite a velhice a partir de agora. É ao nascer que o sol começa a morrer.

Beleza, juventude, mas para sempre. A rosa não é boa conselheira. L'espace d'un matin. Ouço encantado o que me conta a jovem senhora. O espantoso progresso. Mil exames, diagnosticou uma levíssima mioquimia. Involuntário tremor na pálpebra esquerda. À musculação, à ginástica, à dieta, ao tênis, ao cooper, à natação, à bicicleta, juntou conselhos e práticas. Se ri ou sorri, caladinha se promete aquela ginástica facial. Ninguém pode ser feliz sozinho, penso. Trancada no banheiro, ela tenta.

A vida é uma sucessão de ciladas. O casamento, o parto, tudo conspira contra. Lindo bebê, mas mama! Nem à maior amiga dirá que entreviu no canto do olho direito a fimbria de um pé-de-galinha. Só faltava esta: ruga. Multiplica os tapinhas na futura papada. Fulana lhe aconselhou toalha quente. Esparadrapo, fita colante, prendedor. Ela topa tudo. Narinas frementes, bochechas assustadas, afinal se decide: o bebê vai para o pré-geriatra é já. Antes que seja tarde.

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                               Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende.

 

Deve ser coisa de americano, a geriatria. Até a palavra cheira a laboratório. A mesma raiz está em gerontocracia, governo dos velhos. A gerocomia ficava pelos hábitos de higiene. Pensar, sempre se pensou. A perspectiva vai de um extremo a outro. Dou de barato que na simples exaltação se esconde uma ponte de horror. A sabedoria e tal e coisa, como está no Cícero. Mas senectus, morbus. É doença.

Será? Leia Italo Svevo, “Senilidade”. Compreensível, essa obsessão, dada a onipresente promoção da juventude. Palavras e metáforas evitam encarar a realidade. Idoso. Terceira idade. A quarta qual será? Universal, não livra a cara de ninguém. Não pede certidão de nascimento. Não quer saber se está verde, ou maduro. Soou a hora, ninguém escapa. Justiça se lhe faça, a Indesejada é democrática. Nenhuma exceção.

Por antinomia, os valores jovens, obsessivos, tiram do armário o esqueleto. O assustador fantasma. A mocinha, mal soprou 20 velas, já está interrogando o espelho. Mente duas vezes, o espelho. Mente por dentro e por fora. Responde o que você quer ouvir. Você pergunta e responde. Melhor prevenir do que remediar. Aí aparece a pré-geriatria. Não espere. Insidiosa, evite a velhice a partir de agora. É ao nascer que o sol começa a morrer.

Beleza, juventude, mas para sempre. A rosa não é boa conselheira. L'espace d'un matin. Ouço encantado o que me conta a jovem senhora. O espantoso progresso. Mil exames, diagnosticou uma levíssima mioquimia. Involuntário tremor na pálpebra esquerda. À musculação, à ginástica, à dieta, ao tênis, ao cooper, à natação, à bicicleta, juntou conselhos e práticas. Se ri ou sorri, caladinha se promete aquela ginástica facial. Ninguém pode ser feliz sozinho, penso. Trancada no banheiro, ela tenta.

A vida é uma sucessão de ciladas. O casamento, o parto, tudo conspira contra. Lindo bebê, mas mama! Nem à maior amiga dirá que entreviu no canto do olho direito a fimbria de um pé-de-galinha. Só faltava esta: ruga. Multiplica os tapinhas na futura papada. Fulana lhe aconselhou toalha quente. Esparadrapo, fita colante, prendedor. Ela topa tudo. Narinas frementes, bochechas assustadas, afinal se decide: o bebê vai para o pré-geriatra é já. Antes que seja tarde.

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                               Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende.

 

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Será? Leia Italo Svevo, “Senilidade”. Compreensível, essa obsessão, dada a onipresente promoção da juventude. Palavras e metáforas evitam encarar a realidade. Idoso. Terceira idade. A quarta qual será? Universal, não livra a cara de ninguém. Não pede certidão de nascimento. Não quer saber se está verde, ou maduro. Soou a hora, ninguém escapa. Justiça se lhe faça, a Indesejada é democrática. Nenhuma exceção.

Por antinomia, os valores jovens, obsessivos, tiram do armário o esqueleto. O assustador fantasma. A mocinha, mal soprou 20 velas, já está interrogando o espelho. Mente duas vezes, o espelho. Mente por dentro e por fora. Responde o que você quer ouvir. Você pergunta e responde. Melhor prevenir do que remediar. Aí aparece a pré-geriatria. Não espere. Insidiosa, evite a velhice a partir de agora. É ao nascer que o sol começa a morrer.

Beleza, juventude, mas para sempre. A rosa não é boa conselheira. L'espace d'un matin. Ouço encantado o que me conta a jovem senhora. O espantoso progresso. Mil exames, diagnosticou uma levíssima mioquimia. Involuntário tremor na pálpebra esquerda. À musculação, à ginástica, à dieta, ao tênis, ao cooper, à natação, à bicicleta, juntou conselhos e práticas. Se ri ou sorri, caladinha se promete aquela ginástica facial. Ninguém pode ser feliz sozinho, penso. Trancada no banheiro, ela tenta.

A vida é uma sucessão de ciladas. O casamento, o parto, tudo conspira contra. Lindo bebê, mas mama! Nem à maior amiga dirá que entreviu no canto do olho direito a fimbria de um pé-de-galinha. Só faltava esta: ruga. Multiplica os tapinhas na futura papada. Fulana lhe aconselhou toalha quente. Esparadrapo, fita colante, prendedor. Ela topa tudo. Narinas frementes, bochechas assustadas, afinal se decide: o bebê vai para o pré-geriatra é já. Antes que seja tarde.

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À musculação, à ginástica, à dieta, ao tênis, ao cooper, à natação, à bicicleta, juntou conselhos e práticas. Se ri ou sorri, caladinha se promete aquela ginástica facial. Ninguém pode ser feliz sozinho, penso. Trancada no banheiro, ela tenta. A vida é uma sucessão de ciladas. O casamento, o parto, tudo conspira contra. Lindo bebê, mas mama! Nem à maior amiga dirá que entreviu no canto do olho direito a fímbria de um pé-de-galinha. Só faltava esta: ruga. Multiplica os tapinhas na futura papada. Fulana lhe aconselhou toalha quente. Esparadrapo, fita colante, prendedor. Ela topa tudo. Narinas frementes, bochechas assustadas, afinal se decide: o bebê vai para o pré-geriatra é já. 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