13 ago 1992

Cinto, vara, açoite

Periódico
Folha de S.Paulo

Publicada em Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Seleção e posfácio de Humberto Werneck. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 123.

RIO DE JANEIRO Esse pai que deu uma surra no filho retoma um debate que ainda não foi encerrado. Pai pode ou não pode bater no filho? Trata-se do caso de um homem de nível superior. Analista de sistemas, fala várias línguas. Invoca a sua cultura de origem, árabe, para agir como agiu. O filho é adotivo, detalhe que toca o sentimento, mas não faz diferença diante da lei. A lei está contra o pai. Revoltados, os vizinhos chamaram a polícia.

A polícia chegou em meia hora. No ano passado, o menino foi atropelado, era o mesmo, e teve fratura exposta na perna. A polícia demorou três meses para fazer o exame do corpo de delito. Quem diz isto é o pai, que não foge à responsabilidade. Bateu, sim. E baterá mais, se for preciso. Ninguém melhor do que ele sabe se deve ou não castigar. Na segunda série, repetente, o menino continua mal na escola. É a hora em que o corretivo vai bem.

Corro o risco de escandalizar, mas vejo de saída um mérito nesse pai. A franqueza com que assume o seu ato. Numa hora em que o Brasil oficial é uma enfiada de mentiras descaradas, um cidadão aguenta a mão. Não mente. Disse ao repórter da Folha, Gilberto Nascimento. Disse à televisão. E disse à polícia que bateu e por que bateu. Pelo menos na sua casa não impera o reino da impunidade. Quem não anda na linha apanha. Ele faz a lei e ele a aplica.

Hoje isso soa absurdo – e é. Mas ontem a pedagogia entrou no Brasil em companhia da palmatória. Em Portugal, para não dizer na Europa toda, nunca foi diferente. Na Inglaterra, o castigo físico ainda tem defensores. O que aqui é surra de cinta, ou de cinto, lá é açoite. Ou era. No aristocrático Eton. Açoites públicos foram uma rotina na Índia. Era o civilizado método imperialista britânico. E ainda há quem diga que deu excelentes resultados. Muito PhD começou no rebenque.

O Corão, como a Bíblia, lastima o pai que poupa a vara a seu filho. Aí pelo interior do Brasil, a vara de marmelo continua em parte vigente. Uma minoria privilegiada pensamos diferente. Educar filhos é inundá-los de amor. Sinto ternura por esse menino que apanhou. E sinto pena do pai. Também nele a surra deve ter doído. Mas faz das tripas coração e afronta os que o denunciam. Num Brasil desossado que cheira a sentina, é um tipo estranho. Ou não?

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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