15 nov 1992

De um século a outro, ou da sala à sarjeta

Não sabia se era o porteiro, ou se era o segurança que a chamava para ver aquele absurdo. A moça ia entrando na garagem com o seu carrinho novo e se assustou. Viu logo, porém, que o homem era de paz e só queria mostrar o que tinha surpreendido em plena rua. Digo absurdo, mas não era o que ela achava. Achava simplesmente pitoresco.

Atirados na sarjeta, um monte de livros. Era tarde da noite e tinha chovido um pouco. Vizinhos, passando um pelo outro há tanto tempo, nunca tinham se falado, o porteiro e a moça. Sim, era o porteiro do prédio em frente. Sabia que a moça era estudante e a via sempre entrando e saindo com livros. Quem sabe ela se interessasse.

Claro que a moça se interessou. O porteiro ria, como se estivesse diante de um espetáculo engraçadíssimo. Imagine só. Atirar aquela montoeira de livros na rua. Quem foi? Não tinha a menor ideia. Já era tarde e ele não podia dormir. Fazia parte do contrato de trabalho. Para espantar o sono, de vez em quando dava uma espiada pela rua.

Não foi ninguém do prédio, disto tinha certeza, já que não viu vivalma passar pela portaria. Quem seria o excêntrico cidadão? A esta altura, a moça e o porteiro recolhiam livro por livro. Dezenas de livros, quase todos encadernados. Alguns também encapados, e quase sempre com o mesmo papel.

Seja nos prédios, seja nas casas, impossível imaginar um morador capaz daquele ato selvagem. O porteiro ajudou a carregar, mas fez questão de dizer que não se interessava por nenhum volume. Antes da chegada da moça, tinha verificado que se tratava de coisa fina. Livros estrangeiros, em língua de gringo.

Morta de cansaço e de sono, a moça mal pôde amontoar os livros num canto. Intrigada, abriu um ou outro e se espantou. Tinham até ex-líbris. Uma selecionada biblioteca familiar que vinha de longe. Num cursivo da Belle Époque, algumas datas até do século passado, vinha em primeiro lugar uma assinatura por extenso do que devia ter sido o primeiro proprietário.

Nesses volumes finamente encadernados, couro ou pelica, lia-se em segundo lugar a assinatura de uma mulher. Também legível, o mesmo nome da família, as iniciais bem desenhadas. Letra de calígrafo, que não existe mais. Deve ser a filha, pensou a moça. E pelo corte da assinatura, concluiu que estudou no Sion.

Cursivo francês, como se ensinava nos antigos colégios de freiras. Datas remotas, que iam até a gripe espanhola. A partir daí, nem todos os livros traziam assinaturas e muito menos dedicatórias. Podia-se concluir, porém, que os livros passaram ainda por dois ou três proprietários, parentes ou contraparentes do patriarca ancestral.

Uns poucos volumes tinham sido acrescentados. Era o caso, por exemplo, de Bonjour, tristesse, de Françoise Sagan. Presente de aniversário dado por um vago Mathias, com “h”, à uma vaguíssima Dora. Comprado em Paris, em 1955, ostentava a evidência de não ter sido manuseado ou lido. Permanecia virgem como há quase 40 anos.

Com outros pormenores não menos curiosos e intrigantes, a moça me contou a história ao telefone e me convidou para ir ver os livros um por um. Não me disse quantos eram ao todo. Nem chegou a contá-los, porque anda muito ocupada com a sua tese e mal para em casa. A chuva não chegou a estragá-los. Constituem uma apreciável biblioteca doméstica, a que não faltam uns poucos volumes recentes.

Poucos e expressivos, ou seja, best-sellers, desses que andaram na lista dos “dez mais” há cinco ou seis anos. Uns tantos outros, mais numerosos, são livros esotéricos, entre os quais um grosso volume sobre feitiçaria. Este é o único em alemão. Os outros são brasileiros traduzidos e editados aqui. Para completar o inventário, faltaria relacionar um tratado de demonologia em francês.

Mais de cem livros? Sim, mais de cem. Uns 130 pelo menos. Fiquei de ir ver um dia desses. E pedi mais detalhes. Com os livros ao alcance da mão, a moça me falou ao telefone de uma bela edição de The Jungle Book, do Kipling. E de uma outra do Dickens, Great Expectations. Entre os franceses, Victor Hugo, La Rochefoucauld, Chateaubriand.

Esse exemplar das Memórias d’outre-tombe me interessa, mas a moça não tinha tempo para descer a minúcias, dar a data da edição e fazer o rol de toda a biblioteca. Ocupadíssima com o seu doutoramento de engenharia química, não podia perder tempo com os salvados da sarjeta. Literatura que não lhe diz respeito. Já uma hora de sono lhe tinha sido roubada pelo devaneio em que se perdeu.

Sim, começou a imaginar quem teria sido aquele primeiro proprietário de nome comprido e solene, assinado com tinta preta, numa caligrafia que vinha do tempo do onça. O primeiro volume que abriu tinha a data de 18 de maio de 1891. E o belo ex-líbris. Talvez fosse apenas um luxo para exibir numa vitrine da sala, disse eu. A moça repeliu a hipótese. Queria a minha ajuda para continuar a sonhar. Imaginar a cadeia sucessória por que passaram os livros até caírem na sarjeta.

Não tinha espaço para guardá-los no seu pequeno apartamento. Encaminhá-los a uma biblioteca? Isto seria para depois. Eu que fosse pensando na reconstituição do longo caminho percorrido pelos livros. Ficava a meu cargo imaginar rostos e personalidades para os personagens de que só se conheciam as assinaturas. Dize-me o que lês e dir-te-ei quem és. Combinamos de nos ver um dia desses. Sucede, porém, que antes de mim passou pela rua aquele compra-tudo com o seu alto-falante aos berros. E lá se foram os livros da sarjeta para... para onde? Não faço a mínima ideia. Digamos que para um sebo.

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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