A república se inaugurou com um alagoano — e bem à brasileira. O bom marechal Deodoro não queria mal ao imperador. Era até seu afilhado, o que justificava lhe tomar a bênção duas vezes por dia. Quando chegou o 15 de novembro, com o Benjamin Constant republicamente açodado, Deodoro foi um mártir sem fé. Já não era nenhum rapazelho. Tinha dobrado o cabo sexagenário e era natural que se sentisse no maior sufoco.

Posto pelos mistérios do acaso naquela circunstância, que fazer? Viva a república! Montou no seu cavalo alazão (alazão ou branco, talvez baio) desembainhou a espada e proclamou a república. Melhor com ele do que sem ele, ou contra ele. Afinal, Deodoro já tinha assinado um manifesto redigido pela pena republicana do Rui Barbosa. Ainda assim, o marechal dava evidente mostra de ansiedade. O fôlego curto, sobreveio-lhe um acesso de asma.

Esse acesso de asma é para mim um dado histórico que conta a favor do Deodoro. E quem sabe há nele o sinal premonitório do sufoco que iria viver a república. Destronado, d. Pedro 2º foi respirar os ares civilizados da Europa. Entre uma e outra tertúlia em Paris, podia compor seu sonetinho de saudades da pátria amada (e ingrata). Já Deodoro se via aqui nas cólicas do novo regime. Piorou até de suas almorreimas. E não demorou a morrer.

A república substituiu o trono pela curul. Num ou noutra, não é fácil se sentar, sobretudo almorreimado. Deodoro, digno, não demorou a se levantar. Imaginem só: estavam propondo no Senado uma lei de responsabilidade do presidente da república! Considerando-se atingido na sua honra, Deodoro renunciou. Nobre exemplo, o desse altivo alagoano. Pôs logo no berço da república o oportuníssimo e honroso gesto da renúncia.

Ao Deodoro, sucedeu o Floriano, outro alagoano. O Marechal de Ferro. Sabia mandar e consolidou a república, à custa de muito sacrifício. Entre outras maluquices, nomeou para o Supremo o médico Cândido Barata Ribeiro. Na véspera, autorizou Carlos de Carvalho a desmentir a nomeação. Mas nomeou assim mesmo. Carlos de Carvalho, ministro do Exterior, não teve dúvida: demitiu-se. Foi ministro 17 dias. E saiu de cabeça erguida. Mentira, com ele, nem de Marechal de Ferro – e ainda mais presidente!

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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