Lord Acton não via os grandes homens com bons olhos. São quase sempre maus, disse. Este Acton é o mesmo da conhecida sentença de que o poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente. Seria preciso saber primeiro o que se entende por grande homem. Há gente que passa pelo poder, assume ares de grandeza e nada tem de grande homem. Entra anão e sai menor. Inglês de formação católica, Acton tinha uma visão moral da política e do Estado.

Daí talvez o seu pessimismo. Mas é melhor na prática uma atitude pessimista do que o laxismo, que absolve de antemão o Estado e se embasbaca diante dos poderosos. Para o Jorge Amado, no cimo da sabedoria e dos 80 anos, nada neste mundo corrompe mais do que o poder. Numa conversa com sua amiga e tradutora Alice Raillard, o nosso Lord Jorge jura que o poder é uma coisa monstruosa e lhe causa um sagrado horror.

Você pode achar que o pessimismo do Jorge Amado não é como o do Acton. Seria só um momento diante de uma dessas circunstâncias que provocam o mau humor até de um frade de pedra. Mas o Jorge não deixa por menos: o poder, diz ele, tem uma força de corrupção que degrada os caracteres mais puros. Degrada tudo, tudo corrompe. Aniquila todas as formas de lealdade — lealdade para com a pátria, para com a vida, as ideias, a esperança.

Chamado desde cedo para exercer a sua vocação de romancista, Jorge Amado dispôs-se anos e anos, generoso, à militância política. Queria mudar o Brasil. Torná-lo mais justo, ou melhor, menos injusto. Um sonho a que se entregou por inteiro. Andou pelo mundo todo e viu o que viu. Como Lord Acton no século 19, Jorge concluiu que nada de saudável se faz sem liberdade. A democracia é o último refúgio da moralidade. E da Justiça.

Leio que o Bush está à beira de um ataque de nervos. Quem o diz é um eminente psiquiatra. Deprimido, o presidente americano a qualquer hora pode explodir. No entanto, louco para ele é quem o critica. Bush está dividido. Tem dupla, ou tripla personalidade. Caso de hospício no duro. Mas isto que diz o médico é lá com os americanos. Cá entre nós o Jorge Amado olha o Brasil atual e tem vontade de chorar. Quem não tem? Só os doidos. De preferência os que estão no poder.

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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