Suspeito que o municipalismo passou de moda. Quente agora é o parlamentarismo. Por mim acho ótimo, porque sou parlamentarista desde o tempo do dr. Pilla. Raul Pilla, o democrata sem jaça. Alma de apóstolo. Como o dr. Ulysses, foi só deputado. Representante do povo. Gaúcho, o centenário de seu nascimento passou este ano em branca nuvem. Os adversários do parlamentarismo dizem que é difícil conciliar o regime de gabinete com o governo municipal.
Esta não é uma polêmica para o meu bico. E sofro do mal do Machado de Assis. Tédio à controvérsia. Da discussão nascem, quando muito, os perdigotos, diz um sujeito que tem alma de trapista. Vive mergulhado no silêncio. Não abre a boca nem pra reclamar do barulho. Imaginem que tem um vizinho de apartamento que é fã do roque pauleira. Como se não bastasse, ataca no fim de semana de baterista. A batera é boa, mas o rapaz não é nenhum Joe Jones. Nem Gene Krupa.
Está aí um cidadão que não se pode chamar de bom vizinho. Ou de homem bom. Homem bom era em Portugal o pai de família exemplar. Insigne e prestante, cabia-lhe verear a cidade. Exatamente: verear é administrar. Daí é que veio a palavra vereador. Verear é conexo de vereda. O vereador é assim quem indica o caminho. Na cúpula, está o prefeito. Etimologicamente, o que está posto na frente. Nada como a etimologia. Não custa ir ao latim.
Já que entrei por essa vereda, ou esse atalho, município vem de munus. Dom, mérito. Mais o verbo capere, que é receber. O que recebe o dom. O que tem o privilégio. Prefeito já existia em Roma. No Brasil primeiro se chamou intendente. No lugar de vereador, ainda há quem diga edil. Outra palavra romana. Era um magistrado. Mas eu quero falar é da nossa tradição municipalista. Podia não ser lá muito democrática, mas existia já no Brasil colônia.
Os homens bons, ou vereadores, não eram profissionais da política. Reuniam-se, votavam, faziam a lei e estamos conversados. Poucas leis e nenhum subsídio. Trabalhavam de graça. Era uma honra ser homem bom. E assim foi por séculos. Vereador tempo integral o ano inteiro é coisa recente. O Pedro Aleixo restabeleceu a gratuidade da função. Ou missão. Depois caiu. O município virou megacidade. Muito complexo e tal e coisa, mas será que exige mesmo full time? Votemos, minha gente.