Pode ter passado de moda, mas um dia volta. Estou pensando naquelas frases em latim. Têm lá o seu lugar e são confortáveis. O Pedro Nava nunca as dispensou. Tinha à mão o livro do meu parente Arthur Rezende – Frases e curiosidades latinas. A primeira edição, quando ainda se escrevia phrases, é de 1918. Três mil exemplares logo se esgotaram.

Para quem quer dar agora uma de bacana, tipo old-fashioned, existe o livro do Paulo Rónai – Não perca o seu latim. Aí se encontra o latinório adequado, por exemplo, aos “bocas de foro”. Quando se enganam, e se enganam com frequência, porque errare humanum est, os jornais e as revistas hoje em dia confessam os próprios erros numa coluna intitulada “Erramos”. É o estilo pão-pão, queijo-queijo, bem diferente do circunlóquio que se usava antigamente, ao se dar a mão à palmatória.

Uma vez, no Correio da Manhã, ousei chamar a atenção do Costa Rego para um errinho de nada. Desse que por influência do inglês hoje se diz que é factual. O Senador (era assim que o chamávamos), meio aborrecido, escreveu a retificação. No dia seguinte, lá estava o “erramos” à velha moda: “Quandoque bonus dormitat Homerus”. É um verso de Horácio, na Arte poética. Até o bom Homero às vezes cochila. Trocando em miúdos: também os grandes erram.

O Costa Rego foi senador e governador de Alagoas. Quem sabe pode servir de exemplo ao Collor. Sugiro que inclua um latinzinho no seu próximo bilhete. Por exemplo: “Roma omnia venalia esse”. Segundo Salústio, foi o que disseram os aristocratas romanos a Jugurta, príncipe númida, sobre a corrupção reinante em Roma. Tudo estava lá à venda. Mais ou menos como em Londres, ou em Nova York hoje. Mais um pouco e os japoneses compram tudo.

Dito isto, outro dia, na coluna “O Passarinho do Diabo”, escrevi que a História, já dizia Heródoto, é a mestra da vida. Pois vejam só. Estou careca de saber que a História, “magistra vitae”, é de Cícero. Lugar-comum danado. Sei disso desde criancinha. E me saio com Heródoto! Heródoto, o pai da História, só narrava. Genial contador de casos, não foi um pensador. Nunca escreveu sentença nenhuma. É o que me diz, num amável puxão de orelhas, meu amigo e meu mestre Francisco Iglésias. Em vez de cochilar, eu bem que podia dormir sem esta.

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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