Eu por mim considero muito boa a safra de humoristas nesta hora. Hora amarga e séria. Nem por isto é proibido rir, ou sorrir. Bastaria citar os craques que fazem a guerra nos tempos do Collor. Ou o humor. O Millôr, o Jô Soares e o Chico Caruso. Se a trinca fosse de quatro, entrava aí o Luís Fernando Veríssimo. No entanto, são hipocondríacos. E incapazes de realizar uma obra generosa.

Sim, senhor. Se o humorista tem algum gênio, é mau. E por isto sofre do estômago. Vítima da ira destrutiva, disfarça o que é. Usa máscara. Releia o Mark Twain de What is man. Depois de ter feito epigramas cínicos e sátiras amargas, ele aí se abre. O homem é só egoísmo. Um cruel determinismo move o mundo. Nada mais pessimista e iracundo. Releia sua Autobiography.

Fazer rir. Isto é o que quer o humorista. Mas à custa de quê? De tudo que é sério, respeitável e temível. Provoca o riso como libertação e domínio agressivo. Aliás, desde Freud que se sabe. Freud estudou a piada e sua relação com o inconsciente. Quanto maior a repressão de um sentimento, tanto maior a ira. E tanto mais fácil fazer a piada. Mas nem precisa da psicanálise. Todo humorista é um fracassado.

Só que não se conforma com o próprio fracasso. Medroso, cético, recorre à pilhéria e cria uma risonha estrutura. Ferino, jocoso, mendiga elogios. Diz em forma de troça o que nem ele se atreve a dizer a sério. Só se mete com o que odeia. Nunca faz graça porque gosta. Por amor. Mas por impotência e raiva. Acaba vítima do próprio humorismo. Ri de si mesmo, forma de autodesprezo.

Outra coisa, claro, é o bom humor. Otimista, benévolo, vê o lado alegre da vida. Provoca o riso generoso, franco, eufórico. Aqui, sim. Estamos perto da efusão simpática, amorosa. E longe do sarcasmo do engraçado profissional. Este é um ressentido incurável, qual o bobo da corte. Mas está na hora de dizer que tudo isto não é meu. Deus me livre e guarde! Seu autor é Emílio Mira y Lopez. Espanhol, professor de psicologia e psiquiatria em Barcelona, viveu anos entre nós. E aqui ganhou fama de mestre, tá?

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