RIO DE JANEIRO Já se foi o tempo em que ninguém se metia em briga de marido e mulher – nem o marido. Hoje todo mundo se mete em tudo. Se não me engano, isto começou depois que definiram o direito à intimidade, também conhecido por privacidade, palavra que o Morais e o Aulete não registram. Além de feio, é um neologismo malformado e inútil. Ou quem sabe não. Afinal, íntimo é uma coisa; privado, outra.

De resto, a confusão que anda por aí não é só entre íntimo e privado. Como já dizia o Machado, a confusão é geral. Confunde-se o privado com o público, em particular no feminino, quando se trata da fazenda. A fazenda pública, quase sempre devassa, e a fazenda privada, em princípio indevassável. Os bens que são de todos, que ao governo cabe administrar, e os haveres de cada um, que ao governo cabe assegurar. Se os primeiros dissipa, confisca os segundos. Ou bloqueia, o que dá ideia do desatino em voga.

Volto à briga de marido e mulher. Uma das mais célebres, porque falada e cantada, foi a do casal Herivelto Martins e Dalva de Oliveira. O Herivelto está agora com oitenta anos e racha o bico. Anda meio magoado e acrimonioso, mas é uma glória. Além do que compôs, teve achados que a gente nem se lembra de que são dele. Introduziu o apito no samba, por exemplo. Fácil, não é? Hoje sim, depois de inventado.

Na idade de olhar para trás, o Herivelto conta como é que a Dalva lhe acertou um cinzeiro na cabeça. Só porque ele falava ao telefone com a Zezé Fonseca. Falava, não; ouvia, porque a Zezé falava feito matraca. Infelizmente, já não podemos ouvir a versão de quem atirou o cinzeiro. A Dalva está morta desde 1972. Imagino que esteja cantando a bela marcha-rancho "Bandeira branca", em sinal de paz. Um dia a paz desce, leniente, sobre os corações.

Não desceu sobre Joan e Ted Kennedy. Viveram casados 24 anos. O mundo todo de olho no casal, arre! Agora, aos sessenta, Ted anuncia que vai casar com Victoria Reggie, 38 anos. Tradicionalmente católicos, os Kennedy se divorciam e se recasam. Era uma vez o casamento indissolúvel. Tudo hoje é solúvel, do café aos cálculos renais. E às vezes é até dissoluto. Eu achava engraçado quando um jornal escrevia na legenda "fulana de tal e seu atual marido". O adjetivo cabe, sim. E já convém dizer também atual filho. E atual neto. Nunca se sabe o dia de amanhã.

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