Ninguém duvida que João Guimarães Rosa nasceu escritor. A princípio, ele se supôs poeta. Escreveu poesia e entrou em 1936 num concurso da Academia Brasileira. Foi premiado com Magma, que nunca foi publicado. Em 1929, aos 21 anos, Rosa escrevia contos. Esquisitos, puxados à Edgar Allan Poe.

Os títulos não podiam ser mais exóticos: “O mistério de Highmore Hall”, “A queda da casa de Usher”, “Chronos kai Anagke”. Vê-se que, mocinho, já tinha a obsessão das palavras raras, dos nomes esdrúxulos. A originalidade repontava nele como excentricidade. Com o tempo, ia acabar se achando.

Em 1938, Guimarães Rosa, ainda desconhecido, se animou a entrar no concurso Humberto de Campos, da José Olympio. O júri não podia ser melhor: Prudente de Moraes, neto, Marques Rebelo e Graciliano Ramos. Graciliano gostou do livro de um tal Viator e quis premiá-lo. Mas o prêmio saiu para Luís Jardim, com Maria Perigosa.

Quando apareceu Sagarana em 1946, Graciliano nele identificou o autor desconhecido que tinha querido premiar em 1938. E escreveu a sua célebre crônica “Conversa de bastidores”, na qual profetizou que dez anos depois, em 1956, Rosa estouraria com um grande romance. Pois não deu outra. Foi Grande sertão: veredas.

Guimarães Rosa se assinava J. Guimarães Rosa e só depois passou ao explícito João. Até no título, Sagarana, vinha o gosto da palavra desconhecida. Os contos foram reescritos e aprimorados pela oficina de fino joalheiro do autor. O livro saiu pela Editora Universal, do Rio, com capa de Geraldo de Castro.

A Universal era uma pequena editora que também começava. E começava bem, com chave de ouro. Bastaria este livro para que o editor ficasse na história da literatura brasileira. Na verdade, a Universal era uma audaciosa iniciativa do jornalista Caio Pinheiro, que conhecia Rosa no Itamaraty. Conhecia e nele confiou, a ponto de lançar o livro desconhecido do autor obscuro.

Nessa altura, ainda que desconhecido no meio intelectual do Rio, de Minas e de São Paulo, Rosa já era diplomata há oito anos. Tendo colado grau em medicina em 1934, quatro anos depois decidiu fazer o concurso direto para a carreira diplomática e, aprovado em 2º lugar, entrou para o Itamaraty. Foi servir na Alemanha.

Médico e diplomata, duas carreiras que têm pouco em comum. Seriam também duas vocações? No caso de Guimarães Rosa, claro que a resposta é não. Vocação, no sentido de fatal chamamento, ele só tinha uma: a das letras, para ser o escritor inovador que veio a ser, na prosa de ficção. Não deixa de ser curioso que ele só tenha começado a se revelar em 1946, na sua estreia.

Sagarana é hoje uma raridade bibliográfica. Tenho o privilégio de possuir um exemplar dedicado pelo autor, em 5 de maio de 1946. A leitura dos contos rosianos foi para mim um impacto inesquecível. Em vez de me estimular, me deu foi um desânimo tremendo. Eu já andava de moral baixa, jovem perplexo diante do futuro. A grandeza do Rosa me esmagou. Mas logo seu convívio e seu bom humor me confortaram.

Pode-se imaginar por que o menino da pequena cidade do sertão mineiro, Cordisburgo, optou pela medicina, depois de ter feito o ginásio em São João del-Rei em Belo Horizonte. Em São João, foi aluno de meu pai, que o apanhou lendo durante a aula Camilo Castelo Branco. Já era o gosto do vocabulário exuberante. O garimpeiro procurava desde cedo o caminho e o instrumento, para dobrar a língua a seu serviço – e enriquecê-la.

Várias vezes ouvi Rosa contar como fez a sua opção pelo Itamaraty. Cedo se convenceu de que não tinha que ser médico. E era médico da Força Pública, hoje Polícia Militar de Minas. Capitão-médico, como seu colega Juscelino Kubitschek. Em Barbacena, o jovem doutor se levantava cedo e se atirava numa banheira de água fria. Era a chicotada necessária para se preparar para a diplomacia.

Como Clarice Lispector, que foi casada com um diplomata, Rosa não tinha gosto pela carrière. Pelo contrário. Fugia da vida social, das formalidades, até do posto no exterior. Chegou a ministro de 1ª classe, mas nunca chefiou uma embaixada. Preferia ficar no Rio, no seu refúgio do Posto Seis, briquitando, operoso, concentrado, na sua honrada oficina de operário da palavra. 

O que levou Guimarães Rosa ao Itamaraty foi a busca de uma alternativa profissional que, garantindo-lhe o ganha-pão, também lhe permitisse a dedicação à sua obra literária. O Itamaraty tem toda uma história de serviço às nossas letras. Não há movimento ou escola literária que aqui não tenha chegado sem ter tido a cooperação do Itamaraty. A mala diplomática foi também uma autêntica mala literária.

Assim foi com o romantismo de Gonçalves de Magalhães, em 1836, e seus Suspiros poéticos. Assim foi no realismo, no naturalismo, no simbolismo e no modernismo. O fato é que são numerosos os homens de letras que têm passado pelo Itamaraty. Nem todos, como Euclydes da Cunha, foram diplomatas. Mas nem por isto deixaram de ter a sombra protetora ou, se quiserem, a luz aquecedora do Itamaraty. 

A condição de diplomata terá sido importante na vida de Guimarães Rosa. Até os anos no exterior terão sido fundamentais. De longe pôde ver e sentir melhor o Brasil e o sertão, que foi também o béguin de outro mineiro cosmopolita – Afonso Arinos, o pioneiro de Pelo sertão.

Há por outro lado casos curiosos, em que a vida diplomática, longe de estimular, leva o escritor ao silêncio, às vezes definitivo. Veja-se Aluísio de Azevedo. Estava consagrado como ficcionista, quando entrou para o Itamaraty, aos 38 anos de idade. E calou. Abandonou a vida literária. Outro exemplo é Antônio Torres, o panfletário mineiro. Foi para a Europa e nunca mais escreveu.

A lista de escritores-diplomatas é grande. Para só falar de embaixadores, e mortos, podemos citar Graça Aranha, Raul Bopp, Ribeiro Couto, Gilberto Amado, Joaquim Nabuco, Olegário Mariano, Oliveira Lima, Rubem Braga e outros. Sem falar em Vinicius de Moraes, que não chegou a embaixador. Foi cassado pela estupidez de um ato de arbítrio pela ditadura do AI-5.

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As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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