Falei aqui outro dia de passagem sobre a difícil arte de ser vizinho. Uns tantos leitores me interpelam. Primeiro, é arte? Se é, que arte é essa? Claro que é arte. De maneira genérica, ou sucinta, tudo é arte. Desculpem, se pareço ou se estou sentencioso. Viver é uma arte. Como toda arte, difícil. Mais difícil, porque mais refinada, é a arte conexa de conviver. E aqui já tocamos na questão da contiguidade.

É daí, da proximidade, que nascem os atritos. Ninguém se atrita com quem está longe. Qualquer um de nós, por mais abespinhado que seja, se dá às mil maravilhas com um cidadão que habita Pequim. Esse pequinês também é nosso próximo. Amá-lo, até amá-lo, se tira de letra. Não lhe vemos o rosto, nem lhe ouvimos o espirro ou a tosse. Nada sabemos de seus cacoetes e de seus maus hábitos.

O mandamento cristão, o mais importante, senão o único, manda amar o próximo como a si mesmo. Já a lei mosaica falava da mulher do próximo. A que não se deve cobiçar. Assim como é fácil amar o longínquo antípoda de Pequim, é igualmente confortável não lhe cobiçar a mulher. A coisa toda muda quando as distâncias se anulam. Quanto mais próxima, mais complexa a relação. Compartilhar uma casa pode ser um tormento. Uma cama, então, nem se fala.

Chega a ser uma guerra, a mais encarniçada. É a guerra conjugal, cujo teatro de operações aparece na ficção do Dalton Trevisan. E se é guerra, é guerra suja, essa guerra de dois vietcônjuges. Faces da mesma medalha, amor e ódio são vizinhos obrigatórios. Paredes-meias. E cada qual só se encarna pela vizinhança. Se não se encarnam, são meras abstrações. No máximo, platônicas. Não é difícil por exemplo sentir piedade por uma multidão de cem mil flagelados na Índia.

Já não é tão fácil a misericórdia para com o mendigo malcheiroso que na esquina nos estende a mão. Este comete a imprudência de ser nosso vizinho. Não guarda a sábia distância dos flagelados hindus. Vistos numa rápida notícia da televisão, os bons indianos somem num átimo sem nos tirar o conforto da nossa poltrona. Deus nos manda amar os nossos inimigos e os nossos próximos. Provavelmente porque são os mesmos, diz Chesterton. Tem graça, porque tem razão.

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Falei aqui outro dia de passagem sobre a difícil arte de ser vizinho. Uns tantos leitores me interpelam. Primeiro, é arte? Se é, que arte é essa? Claro que é arte. De maneira genérica, ou sucinta, tudo é arte. Desculpem, se pareço ou se estou sentencioso. Viver é uma arte. Como toda arte, difícil. Mais difícil, porque mais refinada, é a arte conexa de conviver. E aqui já tocamos na questão da contiguidade.

É daí, da proximidade, que nascem os atritos. Ninguém se atrita com quem está longe. Qualquer um de nós, por mais abespinhado que seja, se dá às mil maravilhas com um cidadão que habita Pequim. Esse pequinês também é nosso próximo. Amá-lo, até amá-lo, se tira de letra. Não lhe vemos o rosto, nem lhe ouvimos o espirro ou a tosse. Nada sabemos de seus cacoetes e de seus maus hábitos.

O mandamento cristão, o mais importante, senão o único, manda amar o próximo como a si mesmo. Já a lei mosaica falava da mulher do próximo. A que não se deve cobiçar. Assim como é fácil amar o longínquo antípoda de Pequim, é igualmente confortável não lhe cobiçar a mulher. A coisa toda muda quando as distâncias se anulam. Quanto mais próxima, mais complexa a relação. Compartilhar uma casa pode ser um tormento. Uma cama, então, nem se fala.

Chega a ser uma guerra, a mais encarniçada. É a guerra conjugal, cujo teatro de operações aparece na ficção do Dalton Trevisan. E se é guerra, é guerra suja, essa guerra de dois vietcônjuges. Faces da mesma medalha, amor e ódio são vizinhos obrigatórios. Paredes-meias. E cada qual só se encarna pela vizinhança. Se não se encarnam, são meras abstrações. No máximo, platônicas. Não é difícil por exemplo sentir piedade por uma multidão de cem mil flagelados na Índia.

Já não é tão fácil a misericórdia para com o mendigo malcheiroso que na esquina nos estende a mão. Este comete a imprudência de ser nosso vizinho. Não guarda a sábia distância dos flagelados hindus. Vistos numa rápida notícia da televisão, os bons indianos somem num átimo sem nos tirar o conforto da nossa poltrona. Deus nos manda amar os nossos inimigos e os nossos próximos. Provavelmente porque são os mesmos, diz Chesterton. Tem graça, porque tem razão.

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É daí, da proximidade, que nascem os atritos. Ninguém se atrita com quem está longe. Qualquer um de nós, por mais abespinhado que seja, se dá às mil maravilhas com um cidadão que habita Pequim. Esse pequinês também é nosso próximo. Amá-lo, até amá-lo, se tira de letra. Não lhe vemos o rosto, nem lhe ouvimos o espirro ou a tosse. Nada sabemos de seus cacoetes e de seus maus hábitos.

O mandamento cristão, o mais importante, senão o único, manda amar o próximo como a si mesmo. Já a lei mosaica falava da mulher do próximo. A que não se deve cobiçar. Assim como é fácil amar o longínquo antípoda de Pequim, é igualmente confortável não lhe cobiçar a mulher. A coisa toda muda quando as distâncias se anulam. Quanto mais próxima, mais complexa a relação. Compartilhar uma casa pode ser um tormento. Uma cama, então, nem se fala.

Chega a ser uma guerra, a mais encarniçada. É a guerra conjugal, cujo teatro de operações aparece na ficção do Dalton Trevisan. E se é guerra, é guerra suja, essa guerra de dois vietcônjuges. Faces da mesma medalha, amor e ódio são vizinhos obrigatórios. Paredes-meias. E cada qual só se encarna pela vizinhança. Se não se encarnam, são meras abstrações. No máximo, platônicas. Não é difícil por exemplo sentir piedade por uma multidão de cem mil flagelados na Índia.

Já não é tão fácil a misericórdia para com o mendigo malcheiroso que na esquina nos estende a mão. Este comete a imprudência de ser nosso vizinho. Não guarda a sábia distância dos flagelados hindus. Vistos numa rápida notícia da televisão, os bons indianos somem num átimo sem nos tirar o conforto da nossa poltrona. Deus nos manda amar os nossos inimigos e os nossos próximos. Provavelmente porque são os mesmos, diz Chesterton. Tem graça, porque tem razão.

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Qualquer um de nós, por mais abespinhado que seja, se dá às mil maravilhas com um cidadão que habita Pequim. Esse pequinês também é.nosso próximo. Amá-lo, até amá-lo, se tira de letra. Não lhe vemos o rosto, nem lhe ouvimos o espirro ou a tosse. Nada sabemos de seus cacoetes e de seus maus hábitos. O mandamento cristão, o mais importante, senão o único, manda amar o próximo como a si mesmo. Já a lei mosaica faiava da mulher do próximo. A que não se deve cobiçar. Assim como é fácil amar o longínquo antípoda de Pequim, é igualmente confortável não lhe cobiçar a mulher: A coisa toda muda quando as distâncias sé anulam. Quanto mais próxima, mais complexa a relação. Compartilhar uma casa pode ser um tormento. Uma cama, então, nem se fala. Chega a ser uma guerra, a mais encarniçada. E a guerra, conjugal, cujo teatro de operàções aparece na ficção do Dalton Trevisan. E se é guerra, é guerra suja, essa guerra de dois viet-cônjuges. Faces da mesma medalha, amor e ódio são vizinhos obrigatórios. Paredes-meias. E cada qual só sç encarna pela vizinhança. Se não sé encarnam, são meras abstrações. No máximo, platônicas. Não é difícil por exemplo sentir piedade por uma multidão de cem mil flagelados na índia. Já não é tão fácil a misericórdia para com o mendigo mal cheiroso que na esquina nos estende a mão. Este comete a imprudência de ser nosso vizinho. Não guarda a sábia distância dos flagelados hindus. Vistos numa rápida notícia da televisão, os bons indianos somem num átimo sem nos tirar o conforto da nossa poltrona. Deus nos manda amar os nossos inimigos e os nossos próximos. Provavelmente porque são os mesmos, diz Chesterton. 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