A empregada de férias, a garota ia sempre comprar o pão. Cedinho já havia fila. E nunca havia troco. Por que não arredondam logo o preço do pão? Um ou outro freguês se recusava a deixar o troco na padaria. Ela, dócil, recebia como troco os caramelos. Umas balinhas que nem gosto tinham. Ainda se fossem azedinhas, como as que chupam os personagens do Dalton Trevisan...

Até que enfim a empregada chegava de férias no dia seguinte. Na fila a garota pensava como o brasileiro é pouco ou nada cooperativo. Não ajuda. Todo mundo recebe uns níqueis de troco. E ninguém guarda. Ou ninguém leva às compras, para auxiliar no troco. Deitam fora ou atiram no fundo de uma gaveta. Chegou a sua vez e a menina entregou o saquinho de balas. Por essa é que a moça da caixa não esperava.

Perplexa, não sabia o que fazer. E a fila aumentando. A garota firme, a mãozinha estendida: cadê o pão? Se duvidasse, ainda tinha troco. Queria em dinheiro. Nada de confeitos ou rebuçados. A moça da caixa resolveu consultar a autoridade superior, um caixeiro antigo. O caixeiro não achou jurisprudência e apelou para o gerente. Barriga e bigodes à mostra, mais um minuto e lá estava o português. O dono da padaria.

Um país pode viver sem os chamados símbolos nacionais. Amanhã, se resolverem mudar o Hino Nacional, eu não ligo a mínima. Já tentaram mudar até a bandeira. Única que tem dístico. Tem avesso. E positivista. Exótico. As cores também não combinam. Difícil a programação visual. Sem cunhar moeda é que um país não pode viver. Soberania é moeda.

No império apareceu o vintém. Vintém poupado, vintém ganho. Tinha esta inscrição. Veio a república. Caldeireiros e espertos, os ciganos fundiam os vinténs e faziam tachos e panelas. No ocaso do império, deu-se a Revolta do Vintém, por causa do aumento dos bondes. Um tostão: cinco vinténs. Vintém já não servia nem para esmola. Aí Epitácio cunhou o tostão de níquel, que eu menino ainda apanhei. Mas e a garota da padaria? Sim, a fila ficou solidária e o português aceitou o saquinho de balas. E ainda deu o troco. Um cruzeiro certinho.

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A empregada de férias, a garota ia sempre comprar o pão. Cedinho já havia fila. E nunca havia troco. Por que não arredondam logo o preço do pão? Um ou outro freguês se recusava a deixar o troco na padaria. Ela, dócil, recebia como troco os caramelos. Umas balinhas que nem gosto tinham. Ainda se fossem azedinhas, como as que chupam os personagens do Dalton Trevisan...

Até que enfim a empregada chegava de férias no dia seguinte. Na fila a garota pensava como o brasileiro é pouco ou nada cooperativo. Não ajuda. Todo mundo recebe uns níqueis de troco. E ninguém guarda. Ou ninguém leva às compras, para auxiliar no troco. Deitam fora ou atiram no fundo de uma gaveta. Chegou a sua vez e a menina entregou o saquinho de balas. Por essa é que a moça da caixa não esperava.

Perplexa, não sabia o que fazer. E a fila aumentando. A garota firme, a mãozinha estendida: cadê o pão? Se duvidasse, ainda tinha troco. Queria em dinheiro. Nada de confeitos ou rebuçados. A moça da caixa resolveu consultar a autoridade superior, um caixeiro antigo. O caixeiro não achou jurisprudência e apelou para o gerente. Barriga e bigodes à mostra, mais um minuto e lá estava o português. O dono da padaria.

Um país pode viver sem os chamados símbolos nacionais. Amanhã, se resolverem mudar o Hino Nacional, eu não ligo a mínima. Já tentaram mudar até a bandeira. Única que tem dístico. Tem avesso. E positivista. Exótico. As cores também não combinam. Difícil a programação visual. Sem cunhar moeda é que um país não pode viver. Soberania é moeda.

No império apareceu o vintém. Vintém poupado, vintém ganho. Tinha esta inscrição. Veio a república. Caldeireiros e espertos, os ciganos fundiam os vinténs e faziam tachos e panelas. No ocaso do império, deu-se a Revolta do Vintém, por causa do aumento dos bondes. Um tostão: cinco vinténs. Vintém já não servia nem para esmola. Aí Epitácio cunhou o tostão de níquel, que eu menino ainda apanhei. Mas e a garota da padaria? Sim, a fila ficou solidária e o português aceitou o saquinho de balas. E ainda deu o troco. Um cruzeiro certinho.

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Até que enfim a empregada chegava de férias no dia seguinte. Na fila a garota pensava como o brasileiro é pouco ou nada cooperativo. Não ajuda. Todo mundo recebe uns níqueis de troco. E ninguém guarda. Ou ninguém leva às compras, para auxiliar no troco. Deitam fora ou atiram no fundo de uma gaveta. Chegou a sua vez e a menina entregou o saquinho de balas. Por essa é que a moça da caixa não esperava.

Perplexa, não sabia o que fazer. E a fila aumentando. A garota firme, a mãozinha estendida: cadê o pão? Se duvidasse, ainda tinha troco. Queria em dinheiro. Nada de confeitos ou rebuçados. A moça da caixa resolveu consultar a autoridade superior, um caixeiro antigo. O caixeiro não achou jurisprudência e apelou para o gerente. Barriga e bigodes à mostra, mais um minuto e lá estava o português. O dono da padaria.

Um país pode viver sem os chamados símbolos nacionais. Amanhã, se resolverem mudar o Hino Nacional, eu não ligo a mínima. Já tentaram mudar até a bandeira. Única que tem dístico. Tem avesso. E positivista. Exótico. As cores também não combinam. Difícil a programação visual. Sem cunhar moeda é que um país não pode viver. Soberania é moeda.

No império apareceu o vintém. Vintém poupado, vintém ganho. Tinha esta inscrição. Veio a república. Caldeireiros e espertos, os ciganos fundiam os vinténs e faziam tachos e panelas. No ocaso do império, deu-se a Revolta do Vintém, por causa do aumento dos bondes. Um tostão: cinco vinténs. Vintém já não servia nem para esmola. Aí Epitácio cunhou o tostão de níquel, que eu menino ainda apanhei. Mas e a garota da padaria? Sim, a fila ficou solidária e o português aceitou o saquinho de balas. E ainda deu o troco. Um cruzeiro certinho.

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Vintém poupado, vintém ganho. Tinha esta inscrição. Veio a República. Calderei-ros e espertos, os ciganos fundiam os vinténs e faziam tachos e panelas. No ocaso do Império, deu-se a Revolta do Vintém, por causa do aumento dos bondes. Üm tostão: cinco vinténs. Vintém já não servia nem para esmola. Aí Epitácio cunhou o tostão de níquel, que eu menino ainda apanhei. Mas e a garota da padaria? Sim, a fila ficou solidária e o português aceitou o saquinho decaias. E ainda deu o troco. 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