Periódico
Folha de S.Paulo

Publicada em Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. Seleção e posfácio de Humberto Werneck. São Paulo, Companhia das Letras, 2011, p. 278.

Levei um susto quando li que João Gilberto ia completar sessenta anos. Ninguém escapa dessa vertigem do tempo. Ou dessa cilada. E é de repente. Os antigos diziam que a velhice começava aos sessenta. E lá dizia o latim: senectus morbus. Velhice é doença. Até que enfim os antigos já não têm razão. Brincando, se diz que há três sexos. Ou se dizia, porque hoje o terceiro é outro. Antes eram o sexo masculino, o sexo feminino e o sexagenário. 

Como já se passaram vários anos da bossa-nova, está na hora de olhar para trás. Essa viagem nostálgica está no livro de Ruy Castro, Chega de saudade. Como a terra aos olhos de Gagarin, o passado é azul. O passado de que a gente se lembra é ainda mais azul. Dói deliciosamente. Foi assim, cheio de rumores que estavam caladinhos, que atravessei de um fôlego o livro de Ruy Castro. 

Muita gente daquele tempo, hoje azul, está citada. Está lá o poeta Schmidt, por exemplo. Fazia comparações entre a bossa-nova e um galo branco de louça que tinha na sala. Que isto? Eu ouvi a Nara Leão, mocinha, no apartamento do Schmidt, já na rua Paula Freitas. Mas espere aí, Ruy. O poeta tinha um lindo galo branco de verdade, na varanda, engaiolado. Esse galo foi até título de um livro, de 1948: O galo branco. Anos e anos lá estava firme, cantando garboso para a aurora. 

Grande noite, porém, foi com o Manuel Bandeira. Musical, o poeta tinha o convívio do Villa-Lobos, do Mignone, do Ovalle. E do Mário de Andrade, professor do Conservatório paulista. Ficou encantado com o João Gilberto. Pois claro: o João estava lá e mostrou a sua recente batida, que ia fazer bater o coração do mundo. Era na rua Bolívar. Ano? 1960, creio. Rindo à toa, Manuel pôs para fora o piano da sua dentuça. E também tocou violão. 

Doente profissional, tuberculoso, dormia cedo, pontual. Pois João Gilberto o hipnotizou até as duas da manhã. Só então fui levá-lo ao edifício São Miguel, avenida Beira-Mar. Estava comigo o Armando Nogueira. O assunto obsessivo era o violão do João Gilberto. O Manuel impressionadíssimo com aquele rapaz. Não era um joão-ninguém. Era alguém. Um gênio, de ouvido absoluto. Um fio de voz, que até os anjos ouvem em silêncio.

otto-lara-resende
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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