Até onde me lembro, o Carnaval não o empolgava. Em São João del Rey, onde estudou, e depois em Belo Horizonte, não guardo reminiscência carnavalesca do nosso convívio. Nos primeiros tempos do Rio, a gente corria para Minas, serra acima, toda vez que se podia escapar da rotina. Data dessa época o diário em que registrou sua experiência de jovem mineiro em trânsito para virar carioca. Não deixou de ser mineiro. Minas, sua pequena pátria. 

Mas entendeu o Rio como perfeito carioca. O tal diário era escrito em forma de carta que me destinava. Fez aí o seu aprendizado para a prosa de jornal que viria depois a assumir. Alternativa profissional, a que lhe restava. Terá sido escolha, opção? Eu entendia que era melhor mergulhar na redação e preservar, íntegra, a paixão literária. Mas a poesia perturbava o seu entendimento com o jornal. Era fundamentalmente poeta. 

Logo se viu que, cronista, e dos melhores, não deixou de ser poeta. Continuou a escrever poesia. Foi fiel à sua vocação. Também na crônica está visível o seu corte lírico, inquieto, metafísico. Em prosa ou em verso, só foi poeta. Por isto sonhou com profissões impossíveis. Por que não aviador? Lá fomos nós estudar inglês na avenida Brasil, ali pertinho da Praça da Liberdade, para o concurso que nos levaria a ser pilotos. Quem sabe pilotos de guerra?

Ideia mais doida, mas que achei viável. O futuro estava aberto à nossa frente. E comportava todas as hipóteses. Todos os sonhos. Ele se divertia contando que, aos quinze anos, me revelou a existência do uísque. Ainda agora me pergunto se vi mesmo aquela garrafa de White Horse. Sim, claro que vi. E fomos tomar o café com leite do Café Java. Mais um ano e seguiu para Porto Alegre. Trouxe de lá a descoberta de Mário Quintana. Sua simplicidade, lição para toda a vida. Líamos os poetas para encontrar a nossa própria definição. De dia e de noite, a conversa interminável. A gente ia puxar angústia, que ele definiu assim: descer ao fundo do poço escuro, onde se acham as máscaras abomináveis da solidão, do amor e da morte. Pois é, Paulo Mendes Campos. Num dia assim, em pleno domingo de Carnaval, é que você nasceu. Hoje, quem pode crer?, você estaria chegando aos setenta anos!

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