RIO DE JANEIRO Hoje é dia de eclipse. Como a natureza é pontual, o espetáculo tem hora para começar e acabar. Não quero contar vantagem, mas tenho alguma experiência no ramo. Acompanhei como repórter o eclipse de 7 de maio de 1947. Sem falsa modéstia, posso dizer que cobri o eclipse. E não foi um eclipsezinho qualquer, não. Foi um senhor eclipse, muito mais falado e comentado do que o de hoje.

A guerra tinha acabado havia dois anos e estava no ar uma porção de teorias novas e inovadoras que era preciso tirar a limpo. Nada como o escurinho do eclipse para raiar a luz da verdade científica. Se dependesse do Departamento de Estado ou do FMI, o eclipse, esse de 1947, seria visível só em Washington. Mas o Truman, que era o presidente americano, teve de se curvar diante do Brasil. Do Brasil, não; diante de Minas Gerais.

Ou melhor, e talvez seja o caso de dizer ou pior: diante de Bocaiuva. Pois era lá em Bocaiuva que se podia ver o eclipse com o maior conforto. Deve ter sido coisa do Alkmin, que era de Bocaiuva e fazia tudo para prestigiar a sua obscura cidade. Ora, nada como um eclipse para trazê-la à luz do sol. O Henfil era menino e morava lá. Anos depois escreveu sobre o acontecimento que marcou a sua infância. Um monte de cientistas se juntou em Bocaiuva para espiar o eclipse e conferir com o que dizia o Einstein.

Tinha cientista de todo lado, da União Soviética e dos Estados Unidos. Os russos eram barbudos e calados. Impunham respeito como sabichões. Entre os repórteres, estava o José Guilherme Mendes, que fala russo. Mas o eclipse vinha classificado como top secret. Todo mundo na moita. Estava também o Paulo Mendes Campos, para vocês verem como esse eclipse era importante. De volta ao Rio, escrevi que o eclipse tinha me parecido um elefante de circo. Triste como um paquiderme obrigado a fazer gracinha. A metáfora era ousada, mas agradou.

O povo de Bocaiuva ficou apavorado. Desde a Antiguidade que eclipse assusta muito e é tido como sinal de mau agouro. Por via das dúvidas, convém bater na madeira. E vejam só: voltamos num avião militar americano, que sofreu um acidente. Vítima, meu retrato saiu nos jornais. Disseram que sofri perda de substância. De fato quebrei a cabeça, mas nunca soube que substância é essa. Sinto, porém, que me faz muita falta.

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