Em matéria de corrida de automóvel, sou do tempo do Circuito da Gávea. Tempo do italiano Pintacuda e, se não me engano, do argentino Fangio. Do brasileiro Manuel de Tefé. O Trampolim do Diabo (era assim o nome) atraía piloto de todo o mundo. A gente ouvia pelo rádio e vibrava. Uma vez irrompeu a tragédia. Um carro caiu no canal do Leblon. Na última prova, a corrida passava pela minha rua. Era o máximo da intimidade.

Entendo a paixão que desperta esse esporte que junta o homem à tecnologia. Máquina e piloto têm de se entender de forma tão íntima que se transformam numa terceira entidade, feita de aço e osso, de sangue e gasolina, de coração e motor. Quando em 1968 morreu o Jim Clark, eu estava viajando de carro no interior da França e vi a emoção que despertou, a começar pelos meus filhos. Eram lágrimas de cortar o coração.

Dito isto, uma coisa que me intriga é a vocação do brasileiro para a F1. Para a volúpia da velocidade. Tivemos e temos o Emerson Fittipaldi. Seu irmão Wilsinho brilhou um pouco e agora pode ser que desponte a estrela do seu filho Christian. É um clã de craques, que começa com o pai Fittipaldi. É possível que aí conte também o sangue italiano. O italiano tem uma relação quase erótica com a bella machina. Depois do Nélson Piquet, fomos premiados com essa estrela de primeiríssima grandeza que é o Ayrton Senna. A Europa afinal se curva diante do Brasil.

A Europa, não; o mundo. Podem vir americanos e japoneses, que a gente tem aqui uma plêiade de futuros campeões. Alguns, como Mauricio Gugelmin e Roberto Moreno, já roncam vitoriosos os motores. Mas estou agora no auge da admiração pelo príncipe da velocidade, que é como L’Express trata o Ayrton. Ganhando só num contrato mais do que a Xuxa, ou seja, 23 milhões de dólares, a revista o chama de mágico, de extraterrestre e de herói, na sua busca solitária pela excelência.

Vindo como diz de um país que está à margem do resto do mundo, Ayrton reconhece que não é fácil preservar o equilíbrio pessoal. Por isto se concentra em silêncio todo dia. Com uma palavra dedicada à generosidade do povo brasileiro, a grande estrela da F1 quem sabe é um símbolo nesta hora sombria. Pode ser um sinal, para, recuperando a confiança em nosso destino, não irmos de ré até a rabeira do mundo. O Brasil não está condenado a se situar entre os lanterninhas, que diabo! Eia! Sus!

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