Mal atendi o telefone, foi logo me dizendo pra ir ao La Fontaine. Tem essa mania, o meu amigo. Época de crise, já sabe, corre aos fabulistas. Tem de cor e salteado o Esopo. E me pergunta se ainda tenho aquela edição do Fedro. Sim, tenho. Foi do meu pai. Edição bonitinha, confortavelmente bilíngue. Latim e francês. Nem ouviu a minha resposta e recitava um latinório que me deixou confuso. Devia ser a história do homem que matou a galinha dos ovos de ouro.

O telefone anda muito ruim, disse eu. E eu ando meio surdo, disse ele. Só um doido, continuou, vai ao passado ou à ciência política para entender o Brasil. Está tudo no fabulário. Vivemos em plena era dos animais que falam. Foi aí que citei Swift e Andersen. Ele mal tomou fôlego e me espinafrou. Nada de perder tempo. O rei está nu. Direto aos animais! Falantes, não dizem uma única asneira. Veja, por exemplo, as rãs que pedem um rei.

Fui ver, claro. Cá está a tradução de Francisco Palha: “Viviam certas rãs num charco imundo/ Em república plena. Era um pagode”! Como está no original, nenhum rei satisfaz o exigente povo ranídeo. Recorro em seguida à adaptação de Guilherme Figueiredo, por sinal bem brasileira. No final, em dois versos, está a fala de Júpiter: “Que é que pensa que eu sou essa rãzalhada? Querem um rei?/ Lá vai um rei de espada”!

Nessa altura meu amigo já está em outra. Agora é a doninha. No Brasil, doninha é o furão, você sabe, né? Furão ou fuinha. É coisa nossa. Só existe aqui e aí pela América do Sul. Fede pra burro. E quebra tudo que vê. Pior do que macaco em casa de louça. Seu prato predileto é sangue. Sim, senhor, hematófago. Sai da toca à noite e é sabidíssima. Conhece todos os truques da arte de furtar. Pois é isso mesmo. As doninhas do La Fontaine são as nossas brasileiríssimas fuinhas.

Mais esperto, só o morcego vira-casaca. É o único que consegue tapeá-las. Está lá na fábula. Leia, leia. E não se esqueça de repassar “O morcego, a sarça e o ganso”. Vou direto à tradução do Barão de Paranapiacaba. Chamado de tratante, o morcego se muda para o exterior e se cerca de comissários solícitos e ativos. Com negócios fortunosos, tinha livro “contendo o Deve e o Há de haver”. Escapa em suma de todos os meirinhos e fiscais. Dito isto, vou perguntar ao meu amigo o que ele quer dizer com esse morcego e outros bichos.

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