Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende

 

O Nélson Piquet está parecendo o Sílvio Caldas. Despede-se um dia da Fórmula 1 e no dia seguinte volta. Quem o vê na televisão verifica que ele está firme e jovem. No auge da felicidade, com aquela aura que o sucesso dá. Sucesso com muito tutu. E merecido. Afinal só a volúpia da velocidade não justifica que se arrisque a vida numa prova que tem uma dimensão de aventura. Na aventura aliás reside boa parte do seu fascínio.

Cassius Clay, que, islamita, mudou o nome para Muhammad Ali, acaba de chegar aos 50 anos e diz que está velho. No ringue, voava como mariposa e picava como vespa. Era o peso pesado mais rápido do mundo. Fanfarrão, a boca sempre cheia de bazófias. Hoje sofre da doença de Parkinson, provável consequência do boxe. Mas não se arrepende do que fez. Quem não arrisca não petisca, diz ele.

Profissões assim, piloto, pugilista, acabam cedo. Jogador de futebol também. Trinta e poucos anos o cara pode ser um gênio e já está velho. O êxito tem um preço alto. Às vezes desestrutura a personalidade e o sujeito fica aí dando por paus e por pedras, sobrevivente de si mesmo. Muhammad Ali, religioso, foi conversar com Saddam Hussein e libertou 15 reféns americanos. Ex-atleta, atual anjo, disseram os libertos. Glorioso e rico, é natural que um campeão pense numa forma de retribuir o que a vida lhe deu.

Se não é desejável, a velhice é fatal. A única alternativa é sinistra. Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ser velho, escreveu o Swift numa época em que a expectativa de vida era bem menor do que hoje. Esse foi um que viveu à beça: 78 anos. Em 1745, quando morreu, era um Matusalém. Com sorte, escritor, artista, tem essa vantagem. Vive muito e continua trabalhando. Achar interesse e graça na vida ajuda. Velhice azeda ou ressentida é de amargar.

Picasso e Shaw quase chegaram lúcidos e ativos aos 100 anos. No Brasil já temos octogenários e até nonagenários alertas e atuantes. O João Cabral andou dizendo que o poeta deve parar de escrever aos 60 anos. Mas ele próprio é um exemplo de que se pode fazer excelente poesia depois dos 60 e até dos 70. Abgar Renault completou 90 ― e que poeta! O Brasil está agora cheio de velhos. O jovem país de jovens ficou para trás. Então vamos juntar o vigor da mocidade com a sabedoria da velhice. E tocar o país pra frente. Ao futuro!

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                                  Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende

 

O Nélson Piquet está parecendo o Sílvio Caldas. Despede-se um dia da Fórmula 1 e no dia seguinte volta. Quem o vê na televisão verifica que ele está firme e jovem. No auge da felicidade, com aquela aura que o sucesso dá. Sucesso com muito tutu. E merecido. Afinal só a volúpia da velocidade não justifica que se arrisque a vida numa prova que tem uma dimensão de aventura. Na aventura aliás reside boa parte do seu fascínio.

Cassius Clay, que, islamita, mudou o nome para Muhammad Ali, acaba de chegar aos 50 anos e diz que está velho. No ringue, voava como mariposa e picava como vespa. Era o peso pesado mais rápido do mundo. Fanfarrão, a boca sempre cheia de bazófias. Hoje sofre da doença de Parkinson, provável consequência do boxe. Mas não se arrepende do que fez. Quem não arrisca não petisca, diz ele.

Profissões assim, piloto, pugilista, acabam cedo. Jogador de futebol também. Trinta e poucos anos o cara pode ser um gênio e já está velho. O êxito tem um preço alto. Às vezes desestrutura a personalidade e o sujeito fica aí dando por paus e por pedras, sobrevivente de si mesmo. Muhammad Ali, religioso, foi conversar com Saddam Hussein e libertou 15 reféns americanos. Ex-atleta, atual anjo, disseram os libertos. Glorioso e rico, é natural que um campeão pense numa forma de retribuir o que a vida lhe deu.

Se não é desejável, a velhice é fatal. A única alternativa é sinistra. Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ser velho, escreveu o Swift numa época em que a expectativa de vida era bem menor do que hoje. Esse foi um que viveu à beça: 78 anos. Em 1745, quando morreu, era um Matusalém. Com sorte, escritor, artista, tem essa vantagem. Vive muito e continua trabalhando. Achar interesse e graça na vida ajuda. Velhice azeda ou ressentida é de amargar.

Picasso e Shaw quase chegaram lúcidos e ativos aos 100 anos. No Brasil já temos octogenários e até nonagenários alertas e atuantes. O João Cabral andou dizendo que o poeta deve parar de escrever aos 60 anos. Mas ele próprio é um exemplo de que se pode fazer excelente poesia depois dos 60 e até dos 70. Abgar Renault completou 90 ― e que poeta! O Brasil está agora cheio de velhos. O jovem país de jovens ficou para trás. Então vamos juntar o vigor da mocidade com a sabedoria da velhice. E tocar o país pra frente. Ao futuro!

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                                  Ouça a crônica na voz do diretor teatral Bruno Lara Resende

 

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Cassius Clay, que, islamita, mudou o nome para Muhammad Ali, acaba de chegar aos 50 anos e diz que está velho. No ringue, voava como mariposa e picava como vespa. Era o peso pesado mais rápido do mundo. Fanfarrão, a boca sempre cheia de bazófias. Hoje sofre da doença de Parkinson, provável consequência do boxe. Mas não se arrepende do que fez. Quem não arrisca não petisca, diz ele.

Profissões assim, piloto, pugilista, acabam cedo. Jogador de futebol também. Trinta e poucos anos o cara pode ser um gênio e já está velho. O êxito tem um preço alto. Às vezes desestrutura a personalidade e o sujeito fica aí dando por paus e por pedras, sobrevivente de si mesmo. Muhammad Ali, religioso, foi conversar com Saddam Hussein e libertou 15 reféns americanos. Ex-atleta, atual anjo, disseram os libertos. Glorioso e rico, é natural que um campeão pense numa forma de retribuir o que a vida lhe deu.

Se não é desejável, a velhice é fatal. A única alternativa é sinistra. Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ser velho, escreveu o Swift numa época em que a expectativa de vida era bem menor do que hoje. Esse foi um que viveu à beça: 78 anos. Em 1745, quando morreu, era um Matusalém. Com sorte, escritor, artista, tem essa vantagem. Vive muito e continua trabalhando. Achar interesse e graça na vida ajuda. Velhice azeda ou ressentida é de amargar.

Picasso e Shaw quase chegaram lúcidos e ativos aos 100 anos. No Brasil já temos octogenários e até nonagenários alertas e atuantes. O João Cabral andou dizendo que o poeta deve parar de escrever aos 60 anos. Mas ele próprio é um exemplo de que se pode fazer excelente poesia depois dos 60 e até dos 70. Abgar Renault completou 90 ― e que poeta! O Brasil está agora cheio de velhos. O jovem país de jovens ficou para trás. Então vamos juntar o vigor da mocidade com a sabedoria da velhice. E tocar o país pra frente. Ao futuro!

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No ringue, voava como mariposa e picava como vespa. Era o peso pesado mais rápido do mundo. Fanfarrão, a boca sempre çheia de bazófias. Hoje sofre da doença de Párkinson, provável consequência do boxe. Mas não se arrepende do que fez. Quem não arrisca não petisca, diz ele. Profissões assim, piloto, pugilista, acabam cedo. Jogador de futebol também. Trinta e poucos anos o cara pode ser um gênio e já está velho. O êxito tem um preço alto. As vezes desestrutu-ra a personalidade e o sujeito fica aí dando por paus e por pedras, sobrevivente de si mesmo. Muhammad Ah, religioso, foi conversar com Saddam Hussein e libertou 15 reféns americanos. Ex-àtleta, atual anjo, disseram os libertos. Glorioso e rico, é natural que um campeão pense numa forma de retribuir o que a vida lhe deu. Se não é desejável, a velhice é fatal. A única alternativa é sinistra. Todo mundo quer viver muito, mas ninguém quer ser velho, escreveu o Swift numa época em que a expectativa de vida era bem menor do que hoje. 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