Crônica & aguda

Terreiro de café, circa 1949. Foto de Haruo Ohara. Coleção Haruo Ohara/ IMS

Praticamente já não há quem use a expressão acima, rés do chão, escolhida para designar nossos começos de conversa neste Portal da Crônica Brasileira. Quem chegou ao mundo nas últimas (muitas) décadas não tem a obrigação de saber que as três palavras, tradução literal do francês rez-de-chaussée, significam, diz o dicionário Houaiss, “pavimento de uma casa ou edifício que fica ao nível do solo”, ou, mais simplesmente, “andar térreo”. Lugar por onde se entra, portanto – a não ser que você disponha de heliponto no topo do prédio... 

“Rés do chão” já teria, assim, muito a ver com o vestíbulo deste Portal da Crônica Brasileira. Mas há mais: rez-de-chaussée, expressão corrente ainda em países de língua francesa, teve outrora, informa o dicionário Larousse, o significado adicional de “folhetim, artigo impresso nos baixos de uma página”. Porque foi ali, na parte inferior de uma página de jornal, que nasceu, no século 19, o feuilleton, o folhetim, seção de amenidades, espécie de parque de diversões onde pudesse o leitor se distrair da insipidez do noticiário. Não é por acaso que se intitula “A vida ao rés do chão” o texto de Antonio Candido (1918-2017) que vem a ser, provavelmente, o melhor e mais substancioso estudo já escrito no Brasil sobre a crônica. 

Vale relembrar que o gênero, amado pelo leitor mas visto ainda com desdém por empinados narizes não só acadêmicos, felizmente cada vez menos numerosos, aqui chegou em 1852, trazido da França por Francisco Otaviano (1825-1889). O desenrolar da história você sabe. No rastro daquele pioneiro, e ainda na parte inferior da página, vieram José de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo, Raul Pompéia e muitos mais, que viram no folhetim a possibilidade de ganhar um dinheirinho que seus livros não rendiam. 

A moda pegou. Já em 1859 o jovem – 20 anos – Machado de Assis pôs em palavras as características da crônica, tal como é hoje entendida. O folhetinista, escreveu ele, era alguém capaz de promover “a fusão admirável do útil e do fútil, o parto curioso e singular do sério, consorciado com o frívolo”. Para Machado (que na década de 1870 passaria a usar o termo “crônica”), esse tipo de escriba, “na sociedade, ocupa o lugar do colibri na esfera vegetal; salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence; até mesmo a política.”

Esplendidamente aclimatada nos trópicos, a crônica ganharia, no correr do tempo, século 20 adentro, uma cara tão brasileira que muitos chegam a ver nela uma criação nacional. Na verdade, deu-se algo semelhante ao sucedido com o futebol, que aqui veio a ganhar uma “cintura” bem pouco encontradiça entre os ingleses que o inventaram. 

O abrasileiramento do folhetim francês haveria de se consumar a partir da década de 1930, com Rubem Braga. O gênero nunca mais seria o mesmo. “Rubem Braga lançou o grito do Ipiranga e a crônica se libertou”, creditou Paulo Mendes Campos. “Assumiu sua condição de mãe solteira e desparafusada, tornando-se um pretexto literário, amplo, rico e difuso.”

Mas que diabo, afinal, vem a ser a crônica? “Se não é aguda, é crônica...”, esquivou-se o Braga. Tantas décadas depois, definir o gênero segue sendo um desafio. Algo parece claro: jornalismo é que não é, pois não tem compromisso com a objetividade e a impessoalidade, na imprensa obrigatórios. Melhor seria ver a crônica como bem-vinda contramão no jornalismo. Pois, diferentemente do articulista e do editorialista, que nos dão a impressão de estar falando do alto de um caixotinho, o cronista genuíno parece estar de papo com cada leitor, sentados os dois na informalidade de um meio-fio, em clima de deleitosa cumplicidade. 

Nada de procurá-lo, portanto, no topo do edifício, ou mesmo num segundo andar: é por aqui, por este rés do chão, que você vai chegar a seu cronista – a um punhado deles, na verdade, todos graúdos, expoentes daquela que foi, nos anos 1950 e 60, a era de ouro da crônica brasileira. Para começar, além do Braga, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Otto Lara Resende, Clarice Lispector e Antônio Maria, com quem você poderá a partir de agora saborear, num acolhedor meio-fio, a “conversa aparentemente fiada” que nos recomenda mestre Antonio Candido.