Um amigo do Brigadeiro Eduardo Gomes me contou que esteve com ele uma vez em Poços de Caldas; e depois do jantar foram os dois dar uma volta pelo jardim, conversando. Das janelas iluminadas do cassino vinha o ruído das fichas. E o Brigadeiro interrompeu alguma coisa que lhe dizia o amigo, para lhe propor que andassem para o outro lado; aquele xeco-xeco incessante das mesas de roleta lhe fazia mal aos nervos.
Não tenho pelo jogo essa bela e profunda aversão; e certamente agiria como aquele amigo que, depois que o Brigadeiro se recolheu, foi examinar os mistérios da orelha da dama e da barriga do rei e verificar se o 17 continuava preto e arrumado direitinho na segunda coluna. Mas confesso que não chego a ficar comovido quando vejo recomeçar, jeitosamente, a campanha a favor do jogo.
Perdão: a favor do turismo e das criancinhas pobres dos asilos! Pois precisamos do pano verde para atrair turistas com seus dólares, e o Estado precisa tirar um “barato” da campista para poder dar uma gota de leite a cada anjinho faminto. A assistência social e a provisão de divisas só parecem ser possíveis na base do milhar invertido do primeiro ao quinto, suprema criação do gênio brasileiro, fundada na variedade de nossa fauna e nos sonhos de nossas cozinheiras e de nossos senadores.
Ora, quem quer atrair turistas deve, antes de tudo, arrumar sua casa para recebê-los. Um industrial francês deu uma entrevista a um jornal dizendo que em um hotel do Rio fora obrigado a usar água mineral para fazer sua toilette. Dois amigos franceses me perguntaram se aquilo podia ser verdade. Eu respondi que sim. Quanto à assistência social, o nosso prezado presidente, que no seu tempo de candidato se declarou grande admirador do trabalhismo britânico, deve saber que o governo inglês conseguiu fazer mais nesse terreno que qualquer outro país do mundo sem apelar para o jogo do bicho... Se os ricos têm dinheiro demais e não possuem bastante imaginação para saber como gastá- lo, a não ser amassando mutuamente seus “rabos de peixe”, o governo bem poderia inventar um meio de ajudá-los nesse mister sem precisar apelar para o baralho e a bolinha branca. Deve haver. Eu é que não irei dar lições de trabalhismo a chefes proletários como os srs. Vargas, Lafer e Jaffet.
A experiência da Ditadura marca apenas isto: o xeco-xeco vibrante em Copacabana, Icaraí, Quitandinha, Urca, etc., com todas aquelas centenas de estimáveis girls a mostrar suas estimáveis pernas nuas não diminuiu em nada a mortalidade infantil no morro do Cantagalo nem a taxa mensal de mortes por tuberculose em Cascadura. Permitiu, é verdade, situações folgadas para muita gente do governo e simpatizantes. Mas nem para isso é mais necessário o jogo... A prova está nesse caso tão simples, do senhor almirante Lemos Bastos, que, como presidente da Comissão de Marinha Mercante determinou um aumento das passagens da Frota Carioca, e como vice-presidente da dita Frota congratulou-se com os acionistas pelo aumento obtido – tudo isso com tanto sossego e limpeza moral que ficou documentado lealmente nas honradas páginas do Diário Oficial. E não pensem os senhores que o bravo almirante das águas turvas da Guanabara seja um herói solitário.
Não, não precisamos do jogo nem mesmo para fazer a felicidade dos amigos e simpatizantes. O próprio governo dá um “barato” sobre as taxas e impostos...