Uma senhora amiga chegou ontem à noite da França. O marido, que foi esperá-la no Galeão, rodou por vários hotéis sem achar quarto, e acabou aceitando o oferecimento para vir pernoitar em minha casa. E então, sr. prefeito do Distrito Federal, então essa senhora.... Não, não pense que vou contar uma anedota; a história é absolutamente sem graça; e é, mesmo, das mais sem graça que podem acontecer. Então essa senhora abriu uma torneira e viu que não havia água, e murmurou: “estamos no Brasil…”.

A senhora em questão é, graças a Deus, brasileira; se fosse uma estrangeira eu seria obrigado a sentir vergonha – essa vergonha de dono da casa por não poder oferecer um mínimo de conforto ao hóspede. Em meio às emoções de sua chegada, essa amiga que levou mais de dois anos fora, recebeu assim, diante de uma torneira seca, o necessário impacto da realidade brasileira.

Que fazer? Eu por mim faço crônicas: e crônicas não enchem a caixa d’água de ninguém. Não direi também que a culpa seja sua, senhor prefeito. A falta d’água é uma das tradições mais sagradas do Rio de Janeiro; e o senhor provavelmente respeitará essa tradição. Neste momento mesmo em que escrevo passam lá fora duas mulheres e uma menina, cada uma levando sua lata d’água à cabeça: com certeza foram buscá-la em outro quarteirão mais feliz. A verdade é que elas equilibram muito bem suas latas no crânio: a menina, que não deve ter mais de 12 anos e é mulatinha, marcha com uma elegância lenta, sem segurar a lata com a mão; vê-se que sua mãe, sua avó, sua bisavó já faziam isso: ela tem, no pescoço fino, um senso de equilíbrio hereditário. Vestida de amarelo, com uma lata azul, descalça, ela é ao mesmo tempo hierática e pitoresca. É um desses tipos que agradam aos ilustradores de revistas. E é também, sem o saber, embora ainda tão nova, uma tradição do Rio de Janeiro.

Não sou contra nenhuma tradição; apenas quero água. E como há um número para onde a gente deve telefonar em caso de falta d’água, resolvi tomar essa providência lírica. Mas acontece que meu telefone estava, como de vez em quando fica, em crise de som. Também a esse respeito já fiz tudo que me é possível fazer, isto é, uma crônica. Recebi então uma carta amável de um amigo meu que trabalha na Telefônica: vieram uns homens cá em casa; puseram-se a mexer e a falar até que o telefone desasnou. Meu simpático amigo da Companhia chegou a telefonar-me com uma voz alegre e irônica: “então, funciona ou não funciona?” Sim, funciona; às vezes. Nesta última meia hora está parado; pode ser que de repente volte a trinar como um passarinho; há dias que ele fica assim, tão alegre que parece um melro na primavera.

Já não me queixo mais. Como tenho uma extensão, andei sonhando com uma dessas pequenas chaves com que a gente desliga um aparelho quando está falando ao outro. Não arranjei. Não há. Água também não há. Lembro-me que o general Mendes de Morais – que Deus o tenha, em sossego, do outro lado ao Atlântico – costumava falar em adutores e outros nomes feios. Espero, senhor prefeito, que o senhor não faça isso. Tenho algum receio do senhor, porque nos ameaçou com um governo suíço. E a Suíça é um desses países de lenda, onde as torneiras dão água, as vacas dão leite, os serviços públicos prestam serviços ao público. Aqui, nesta cidade incompetente (como diria o sr. Otávio de Souza Dantas), nesta cidade incompetente temos de nos lembrar sempre disso que a minha amiga chegada ontem à noite de Paris descobriu logo: “estamos no Brasil”...

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
x
- +