A noite começou a se desenhar insensata, e eu tive tanta vontade de fazer uma letra de samba, falei com Bororó, falei com Antônio Maria, eles abanavam as grandes cabeças. Araci, minha madrinha, meu guia da noite, me refugou, disse que era protestante, e Antônio Maria quis me dizer que o pai dela era pastor, mas como tinha bebido muito, disse: “ela é filha de seminarista”, o que soou visivelmente mal. “Com 14 anos eu segurava o violão de Noel”; e tinha um apelido. Eu insistia em fazer a letra, murmurando: “esta noite eu não me aguento, minha madrinha me disse que eu não estou na linha do vento”. E depois juntei um breque de “Araci, araçá, araçatuba, aracati”.

A essa altura Angela Maria canta: “Já paguei todos os pecados meus…” E fui dominado pela cruel tristeza, pois então uma velha amiga tão querida chega nesta bendita cidade, não acha um minuto para telefonar, dizer bom dia a quem a adora eternamente? Sentia-se que a noite estava envenenada; ia apodrecer. Mas de repente houve um chorrilho de surpresas e alegrias, tudo ficou muito azul, parece que havia luar.

As seis e meia da manhã havia um mendigo dormindo numa reentrância da parede da igreja de Nossa Senhora da Paz, no bairro de Ipanema: tinha a barriga nua, via-se-lhe o umbigo, tinha a barba chamada antigamente hirsuta, e dormia energicamente, o corpo dobrado em forma de dabliú; não era velho, e havia em sua figura uma força meio sinistra que era tudo o que tinha dignidade naquele ambiente de gótico falsificado. Olhei com tristeza o horrendo Cinema Pax e me lembrei do que Gilberto Freyre conta: antigamente, no Brasil havia mendigos que tinham dois escravos, pediam esmola deitados na rede. E também o mendigo com o seu cavalo. “Até os mendigos empobreceram neste nosso país”, pensei. Eram sete horas da manhã e fui dormir, então me lembrei que tinha combinado com Chico Brito sair às oito, mas murmurei: podeis estar quietas, ó lindas garoupas na ponta sul; e vós, nada temei de mim neste sábado, ó badejos formosos das ilhas Tijuca; eu vou dormir, vou mergulhar entre as negras jamantas do sonho obscuro e os meros do pesadelo; adeus, adeus. E morri.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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