Houve mais um crime passional: abandonado pela esposa, que foi viver com outro, um homem foi até a casa onde estava o par. Duelo de tiros: morreu o amante, a senhora ficou ferida e o marido criminoso foi preso.

Já fui cronista policial e nunca deixei de ler crônicas policiais. Lendo essa história em dois ou três jornais, fiquei depois a pensar nesse mistério profundo que envolve o critério do redator policial. Há o crime. Horas depois, o crime está na rua, impresso, mas não está apenas o crime. Está a sua história, a sua psicologia, seu romance. Em cinco ou dez linhas (às vezes, santo Deus, em 20 ou cem) conta-se a história íntima do casal. Quase invariavelmente nos casos como o de agora, o cronista policial afirma que durante tantos anos o casal viveu em “perfeita felicidade”. E com um desembaraço esplêndido, explica porque sumiu de repente essa felicidade, invadindo a psicologia dos cônjuges, distribuindo adjetivos infamantes ou honrosos, estabelecendo com uma espantosa facilidade o quadro e a mecânica de paixões e sentimentos. É extraordinário. A história chega ao leitor simples, clara, com uma etiqueta decisiva pregada na testa de cada personagem: o bem, o mal, a traidora, o criminoso, a vítima.

O cronista policial não conhece problemas, não padece dúvidas. Contai-lhe dois fatos secos, ele redigirá um romance imediato, que é sempre, em resumo, um episódio da luta entre o Bem e o Mal, entre o Vício e a Virtude.

E lá estão no jornal os retratos dos personagens tristes, retratos tirados em outros dias, sorrisos hoje despedaçados à bala ou substituídos pelo carão da tragédia.

Ah, colegas da crônica policial, sejamos humildes perante esses dramas da vida. Evitemos pregar arbitrariamente em cada testa um rótulo definitivo. Contemos o que aconteceu, sejamos secos e precisos; não julguemos. Que sabemos nós do coração alheio e como poderemos reconstituir em algumas horas, à luz do relâmpago de um crime, toda a história emotiva de um casal? Contemos o que cada um disse depois do crime, o que outras pessoas disseram; levemos ao público honradamente palavras e fatos. Não façamos nem um romance, nem um julgamento. Acaso sabemos ler os corações?

Nenhum coração está tão perto do meu como o de Joana; e que sei do coração de Joana? Ele tem tristezas secretas e alegrias íntimas que Joana guarda para si. Ele tem a decepção e o fervor: ele tem a raiva e a ternura. E se nem as palavras nem os risos e as lágrimas de Joana podem me contar esse mundo, que me resta fazer? Ser humilde. Eu sou humilde, Joana. Sejamos humildes, colegas da crônica policial. Por que dizer que a mulher já não amava os filhos? Como, por quê, para quê dizer?

Não digamos nada. Conte-mos que o primeiro tiro foi dado presumivelmente a quatro passos de distância; mas a primeira decepção, a primeira onda de ternura, o último suspiro de tédio, o pranto de desespero — não, isso não sabemos. Não sabemos, ninguém sabe. Nem sequer devemos saber.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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