Podem usar e abusar dessa árvore em decoração, em bandejas de madeira, até em quadros de asas de borboletas: o pinheiro do Paraná continua a ser uma bela e nobre árvore, com seu grosso tronco vertical e escuro onde não se enroscam cipós nem se prendem parasitas — e, lá no alto, para compensar essa máscula sobriedade retilínea, os galhos ensinando a doçura das curvas suaves. Qualquer artista da Renascença amaria pintá-los no fundo de seus retratos ou de suas imagens de santa. Sob os pinheiros, as casas feitas com sua madeira, são todas no estilo dos camponeses alemães, com o sótão para guardar as sementes, o telhado em forte rampa para escorrer a neve das recordações, e uma das abas se alargando um pouco mais para cobrir a graça de uma varanda.
É bela e viva essa paisagem do planalto de Curitiba, que cortamos para o oeste, parando em Campo Largo para visitar uma fábrica de louças. Pouco antes do quilômetro 50 a estrada sobe a Serrinha, que é a aba do segundo planalto — e avançamos agora por esses gerais, levemente ondulados. A paisagem tem quatro quintos de céu — e às vezes, na velocidade do carro, distraídos, vemos o céu lá em baixo, e o sentimos subir, e passar seu manto azul por nossos olhos, que vão embalados entre o verde e o azul, nessa imensidão sem ângulos, nem linhas verticais, toda em mansas curvas deitadas.
Até Palmeiras vamos descendo suavemente; depois vem Ponta Grossa, grande e forte, no alto de uma colina — e saímos para ver, em Vila Velha, a extravagância desses blocos de arenito altos de 30 metros que se amontoam de súbito sobre a imensidão dos campos apenas sombreados de capões — e simulam muralhas derruídas de incas, monstruosas flores surrealistas, torres velhas, lombos de esfinge, bichos de 30 metros. Depois outra vez a lombada dos campos infinitos, e de repente, bela como um segredo, escondida entre árvores, muito pura e transparente, a Lagoa Dourada.
Em Carambeí visitamos uma antiga colônia holandesa; são 50 famílias cujas vacas, também holandesas, produzem uns quatro mil litros de leite diariamente. As mulheres, rosadas e louras, parecem tão calmas e suaves como essas grandes vacas que, depois de pastar um pouco e ruminar vagas recordações da planície batava erguem o focinho para comer o fruto das pereiras carregadas. Esses holandeses alimentam suas vacas a peras, e parecem felizes, e meio tristes, à porta de suas casinhas de cortinas brancas, na doçura da tarde imensa.