Menos mal; temos grandes árvores de Natal armadas nas praças e avenidas. São gentilezas da Prefeitura; dizem que é imitação da América do Norte. Dizem que na América do Norte as Prefeituras não apenas armam grandes árvores de Natal, mas chegam mesmo a fornecer água para a população tomar banho, lavar roupa e fazer sopa e, além de água, outras comodidades. Enfim, são luxos. Eu já morei numa praia onde só havia água de cacimba, é verdade que era um pouco salobra, mas a gente se acostuma. Sim, sim, reconheço que nos apartamentos fica mais difícil a gente abrir cacimbas, mas também o fato é que o pessoal reclama demais, e só quer viver na facilidade. Brasileiro é assim mesmo, e carioca então é de amargar. Agora temos um prefeito político; vai fazer boas nomeações, aliás já fez muitas quando esteve um mês interino. Acho que com o tempo toda a população do Rio acaba sendo funcionária da Prefeitura. Assim se resolve o problema, porque todo mundo sendo da Prefeitura ninguém mais pode se queixar da Prefeitura. Eu bem que disse que o dr. Getúlio era meio socialista. Um dia cada pai de família terá o seu cartório e cada pessoa que for ao “Beguin” receberá uma Jackle bem loura, e belga, e linda, para seu fim de noite. O que é preciso é saber esperar, e aliás para tudo dar certo precisamos prestigiar o Velho. Quanto aos têxteis, sim, é verdade eles ganham pouco, mas talvez seja possível contornar a situação permitindo que eles assistam aos desfiles de modelos com excitantes moças esgalgadas envolvidas em finos tecidos nacionais de algodão –  por que não de açúcar de algodão? É preciso ao menos adoçar a boca do pobre. Mas, é claro, todos precisamos compreender que lugar de mamoeiro é no quintal. Bem, de agora em diante só falarei por meio de parábolas; não por medo, e sim por delicadeza. Aliás, não me convidaram para aquele negócio de comprar algodão ao Banco do Brasil a longo prazo e juros de três por cento ao ano. É sempre assim: todos gostam do Braga, dizem que é boa praça, e de vez em quando escreve umas coisas gozadas – mas na hora do algodão, nem de açúcar, nem sem açúcar. Prazo de cinco anos, Juros de três por cento – eu compro até o Banco do Brasil, com inquérito e tudo; ah, se o Velho simpatizasse comigo! Precisamos prestigiar o Velho. Eu agora, francamente, não tenho muito tempo, porque é verão e estou com um programa de praia muito intenso, mas logo que estiver mais folgado vou prestigiar o Velho um pouquinho. É como diz o Ataulfo em outro samba: “cada um trate de si”. Bem, isso não chega a ser uma grande frase, como por exemplo aquela de fino espírito que o nosso Velho disse ao americano Lewis: “o senhor parece muito com suas fotografias”. Há coincidências interessantes neste mundo. Vou parar com urgência, fechar a máquina, a crônica, a porta e a janela, fechar os ouvidos, fechar a mão, bater na madeira: o rádio do vizinho está tocando “Calu. Calu…” Isso também é demais.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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