A corrida de cavalos perdida na infância. Não aquela em que eu apostei dois mil réis que minha madrinha me dera no domingo pela manhã, uma corrida selvagem de éguas em pelo, ao longo da praia, montadas por moleques maratimbas descalços. Lembro o carrossel iluminado moendo sua música, e as meninas de azul e cor-de-rosa que passavam, umas sérias, outras sorrindo, montadas em seus cavalinhos de pau.

Tournez, tournez, bons chevaux 
[de bois, 
Tournez cent tours, tournez 
[mille tours, 
Tournez souvent e tournez tou- 
[jours…

As meninas passavam. Continuam vagamente ainda a passar, e talvez cantando esses versos de Verlaine com aquela música de moinho: la-ra-la-ra... aquela música que parecia mover os cavalinhos de pau. 

Relembro duas, eram irmãs; uma sei que entrou para o convento depois de uma adolescência triste. A outra, de cara fina e olhos de caldo de cana, a que eu não podia ver sem me perturbar, que houve com essa menina perdida no carrossel do passado? Talvez ainda dê voltas em seu cavalinho de pau, com seu eterno sorriso tímido sob a luz dourada da maxambomba ingênua.

Tournez au son du piston 
vainquer…

O cavalinho subia e descia; talvez tenha subido demais, se libertado do carrossel, voado pela noite de estrelas, muito acima da roda-gigante, muito além dos morros nativos.

Talvez tenha descido depois, varando a barraca de um circo, a menina feita moça, de pé, esplêndida em suas ancas…

Tournez au son joyeux des tambours....

E dessa noite de glória e banda de música no circo talvez Temperani, dessa noite gorda e deslumbrada de domingo, eles devem ter fugido depois, galopando longamente à margem do rio triste de nome longo e humilde como o seu murmúrio e de tanto galopar juntos através das escuridões e encantamentos, se fundindo os dois em uma centaureza de seios redondos e tornozelos finos e crinas ao vento... E na ampla tarde de maravilha, sob o céu da Gávea, estavam outra vez separados, cavalo e mulher, ele com algo de feminino na finura de suas linhas nobres, ela com algo de potranca na pisadura nervosa e firme, mas tão ligados na emoção que parecia que os olhos da mulher é que o faziam correr, os olhos e o coração batendo, mandando, pedindo, chorando, rezando…

E acima das autoridades e dos homens de apostas ávidas, e acima da elegância e das poules, e da multidão consciente de sua mesma grandeza na tarde de maravilha, estavam as imagens simples e eternas que doem no coração do homem. Um cavalo e uma mulher, caminho da vida com todos os ventos, carrossel que gira em zonas de sombra e de luz…

Tournez, tournez, bons che- 
vaux de bois…

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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