Os jornais do Rio publicaram o desenho que Picasso fez de Stalin e que apareceu em Lettres Françaises. E contaram que o secretário do Partido Comunista Francês censurou o poeta Aragon, diretor do jornal, por havê-lo publicado. Aragon já se desculpou todo.
O desenho é, na verdade, engraçado. Em primeiro lugar, figura um homem mais moço 40 anos que Stalin. Exagera seus bigodes. Aumenta-lhe o pescoço. Leva a linha das sobrancelhas muito para fora do canto dos olhos; encomprida o nariz, aumenta os olhos, que faz românticos e ingênuos. Enfim: o retrato não se parece nada com nenhuma fotografia de Stalin, nem velho, nem moço.
Entrevistado por um jornalista, Picasso explicou: “Pediram-me um desenho, e eu o fiz como o sentia” — acrescentou que nunca viu Stalin e procurou fazer parecido.
Não me custa imaginar como tudo se deu. Picasso não estava em Paris, mas em sua casa de Vallauris, no sul da França, alguns quilômetros, morro acima, de Golfe-Juan, onde Napoleão desembarcou quando voltou da ilha de Elba. Lá, no sossego de sua casa, onde o visitei — um sobradão do gênero desses que a gente vê em Santa Teresa, ele recebeu o telegrama de Aragon, para mandar com urgência um retrato de Stalin. Devia estar pintando um quadro ou fazendo uma cerâmica. Não podia deixar de atender ao pedido. Rabiscou um boneco qualquer, sem ao menos se dar ao trabalho de procurar ver uma fotografia de Stalin, e o mandou logo para atender ao amigo e correligionário.
Muitos pintores fazem o mesmo, quando têm de atender a um pedido e não estão inspirados. Fazem um desenho com a mesma displicência com que um escritor escreve algumas palavras antes de um autógrafo no seu livro que um admirador desconhecido lhe traz. E depois continuam a trabalhar no que o interessa, sem pensar mais no assunto.
Picasso teve de voltar a tratar do assunto, perfeitamente aborrecido, devido ao barulho que produzia. O equívoco, em que parece cair o secretariado do Partido Comunista Francês, é pensar que Picasso fez Stalin assim por “modernismo”; na verdade ele tentou fazer um retrato mais ou menos acadêmico; apenas foi displicente em excesso.
Quanto a Aragon, ele publicou o desenho porque era assinado por Picasso, e nada mais. Respeito ao nome. Os leitores estranharam aquele mancebo de olhos ternos e carinha oval, sobrancelhas chorosas — e Aragon teve de pedir perdão.
O Partido foi severo com Aragon (ele terá de publicar as cartas indignadas dos leitores) mas suave com Picasso, que nem sequer censura, e cujos “sentimentos” faz questão de não pôr em dúvida.
Isto se explica. Aragon é um homem de prestígio já gasto pela prática da submissão à “linha justa”, e haveria de bater no peito mais uma vez. Picasso é um espanhol estabanado, quase rude, e orgulhoso, que pode ser explorado mas não pode ser humilhado. Além disso, por mais que isso desgoste aos “estetas” ortodoxos de Moscou, a direção do P. C. francês não se anima a brigar com ele por dois motivos: seu imenso prestígio internacional, que de algum modo se reflete sobre o partido a que pertence — e seus donativos de milhões de francos, que já serviram, inclusive, para assegurar a existência de Lettres Françaises…