Periódico
Correio da Manhã

Publicada, posteriormente, na Manchete, de 12/02/1955, e no livro A cidade e a roça,  José Olympio, 1957, com o título a "A cidade feia".

Carybé queria encontrar uma loja de antiguidades onde anos atrás ele viu um dente de marfim trabalhado, e o sujeito queria 600 cruzeiros, Carybé não tinha, mas ficou com pena de não ter comprado, nunca se esqueceu daquele desenho, uma cobra engolindo um menino, um homem segurando um peixe, uma bananeira, um macaco. “Marfim africano” — disse Carybé — “e o desenho é uma beleza de simplicidade”.

Sei que por causa disso andamos uma porção de tempo por aquelas ruas transversais de Frei Caneca, Inválidos, Tenente Possolo; e que nessa andança a gente passava por dezenas de casas comerciais e também residências, e passavam bondes e ônibus, havia gente triste na porta dos botequins, mulheres feias espiando das janelas, oh Senhor o quanto é triste esse trecho urbano, o quanto é urbano! Aqui se compra chumbo a 12 cruzeiros e alumínio a dez cruzeiros o quilo, ali é a tinturaria Flor de Ouro, tão escura e suja, além um restaurante de nove cruzeiros a refeição, acolá uma porta de quinquilharias de matéria plástica, depois ferros de engomar, bonecas empoeiradas, um pequeno Joalheiro, um melancólico, alfaiate, uma loja de sapatos feios.

Nessas ruas e em outras haverá casas boas, pequenas indústrias respeitáveis, artífices hábeis, até firmas de grande importância, mas o que enxameia é a tristeza desses pequenos negócios de mercadorias pífias, essas tristes oficinas sem luz, nem fé, nem esperança. Aquela mulherzinha que vende coisa de adorno caseiro (estatuetas horrorosas de barro pintado, vasos vermelhos, bibelôs baratos, uma infinidade de bugigangas de um mau gosto lancinante) terá ela fregueses certos, ganhará seu modesto dinheiro, morará no alto ou nos fundos, terá filho, irá algum dia à praia, ao Jardim Zoológico, ao Jardim Botânico, terá bronquite ou morrerá de quê? 

Essa humanidade é em demasia feia, e mesmo as criaturas jovens, belas e fortes têm um certo ar cansado ou usado, um indefinível desgaste, uma invisível poeira de fadiga que invade seus pulmões e seus destinos. Não há miséria, há apenas pobreza, mas o que essa pobreza tem de terrível é seu ar impuro e comercial, sua afetação medíocre, a mesquinhez de seu território de asfalto, entre paredes pardas. Não há árvore, nem céu, nem campo, nem mar, nem rio, nem nenhum horizonte azul ou verde, e entretanto aqui, entre as lojas, atrás das lojas, sobre as lojas, nas próprias lojas, mora gente — vive, come, cresce, ama. Há pequenos hotéis, pequenas casas de saúde — eu me imaginei saindo de um pequeno quarto amarelo do andar térreo daquele hotelzinho de esquina para visitar Carybé operado de hérnia naquela pequena clínica, ou esperá-lo na porta daquele dentista que anuncia extrações sem dor, para comer um sanduíche de mortadela com cerveja preta no botequim cheio de moscas, de chão preto.

Isto é uma cidade, esta é a maldição da cidade, e ainda nas mais belas cidades há estas zonas sem horizonte e sem história, cheias de poeira e de barulho, de pequenas espertezas e medíocres ambições, de esforço, tédio e limitação. Proponho a Carybé que eu me mude para um hotelzinho melhor — ao “Santa Comba”, que me agrada o nome! — e levemos para o quarto uma garrafa de cachaça e lá bebamos, discutamos e durmamos, para sonhar com uma Cidade mais humana e uma vida mais bela.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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