Nada me dá mais aborrecimentos nem prejuízo na vida que minha má memória para nomes e pessoas. Estou, volta e meia, a fazer cara de parvo diante de alguém que me chama pelo nome e me trata com intimidade e que não sei se é um antigo companheiro de jornal de Porto Alegre, colega de pensão no Recife, companheiro da FEB, conhecido de bar, de cadeia ou de viagem.

Já conversei vinte minutos com um ministro do Supremo Tribunal que foi meu professor durante um ano crendo tratar com um velho “picareta” de matéria paga, e já pedi para ser apresentado a uma belíssima senhora para depois saber, de sua boca, isto: que lhe havia sido apresentado várias vezes. Quando se trata de um homem importante ou de uma dama formosa, menos mal. Mas se é uma pessoa pobre ou obscura, essa minha triste amnésia toma um caráter odioso e indesculpável. Ri muito quando, há tempos, um amigo me contou que o então Chefe de Polícia se manifestara irritadíssimo contra mim ― “tenho vontade de mandar prender aquela besta” porque eu teimava em não conhecê-lo, apesar de ter-me encontrado com ele inúmeras vezes, em casa desse amigo comum. Mas sofri quando o redator esportivo de um jornal em que trabalhei anos, um rapaz de quem fui quase íntimo, e de quem positivamente não me lembrava mais nem a cara nem o nome, se queixou a um amigo comum de que eu fingira não conhecê-lo, para “bancar o importante”.

E o pior é que cheguei à conclusão de que, a respeito desse meu defeito, não há, simplesmente não há o que fazer. Nem mesmo apresentar desculpas à vítima de minha voluntária estupidez; não adianta. Consolo-me apenas não me irritando nem de leve com pessoas que me desconhecem sempre, apesar de apresentadas várias vezes ― até pelo contrário, sinto uma grande simpatia pelo meu colega em patetice. E já desisti, sobretudo, de querer parecer inteligente; aprendi que quando um “estalo” me vem no cérebro obscuro e eu de súbito sinto perfeitamente que estou falando com o capitão Guimarães, o mais provável é que se trate do Ferreira, alfaiate.

Já hospedei em minha casa durante dias um rapaz, sem saber de quem se tratava, mas que eu acreditava ser um ex-amigo íntimo ― para depois saber que ele achara extraordinária a minha gentileza, pois éramos apenas vagos conhecidos; e no Ceará chamei para a minha mesa e obsequiei com vários uísques um sujeito que eu tinha a impressão de que tinha sido meu colega de faculdade e depois soube, indignado, que era um “tira” que me prendera anos atrás e fora, comigo, particularmente rigoroso e chato. Mais de uma vez, vendo de súbito uma cara conhecida, fiz saudações efusivas para depois perceber, desolado, se tratar de um desafeto.

Sim, tenho passado vergonhas. E como ainda ontem passei uma, resolvi escrever esta crônica para pedir, de público, perdão a todos que, sem querer, tenha ofendido com essa debilidade mental. E nem ao menos sou míope! Desculpem-me, velhos amigos, se para mim de súbito virais fantasmas que me intrigam e afligem. Crede: a memória é traiçoeira e vagabunda, mas em algum canto de meu coração, disfarçada com outra cara ou outro nome, está a vossa lembrança, rodeada de afeto e talvez de saudade. Difícil é encontrá-la, dentro de minha alma desarrumada como um navio tripulado por ausentes e bêbados; mas o coração, este, eu vos digo, é humilde, e até bom.

rubem-braga
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