Foi quando o canto das cigarras se elevou, solene, na boca da noite. Da janela alta eu olhava o morro ― um bloco imenso de pedra, depois casinhas entre árvores, bananeiras imóveis esperando a brisa da noite nascer. Fazia calor, mas sentíamos que em alguma parte essa brisa caminhava; ela vinha vindo entre moitas anoitecidas, em direção do mar, e passaria pela nossa janela e pelos nossos rostos.

Lá dentro a festa ia alegre, mulheres riam, mas me deixei ficar um pouco na janela vendo o movimento lá embaixo na rua ― meninas e mocinhas que saíam para o cinema, um automóvel que chegava com um casal cheio de embrulhos de presentes...

Assim, de tão alto, não pareciam gente, mas brinquedo de gente, um ingênuo presepe civil em que se podia apontar: lá vai um par de namorados; outro está parado na esquina, um pretinho descalço está brincando com um aeroplano de papel; a moça de short chega de bicicleta. Uma vaga música qualquer vinha de algum apartamento, mas o canto das cigarras é que era o hino daquele instante, a saudação à noite, o canto funeral do sol.

A luz de um abajur acendeu-se em um dos apartamentos do edifício em frente. Era uma luz escassa, mas aos poucos fui distinguindo na sala um homem numa poltrona, uma árvore de Natal, uma mulher de vermelho, outra de amarelo. Havia também um rapaz em mangas de camisa que entrava e saía. Uma das mulheres levantou-se, foi para um canto da sala onde eu não podia enxergá-la, ou então para algum quarto. Nesse momento entrou a moça de branco.

Era loura, mas com a pele muito queimada pelo sol; teria 16, 17 anos, e era gordinha. Sentia-se que acabara de tomar um banho e pusera aquele vestido branco; tinha alguma coisa na mão. Passou para o quarto ao lado, que também dava para a rua, e acendeu a luz. Abriu a porta de um armário; ali havia certamente um espelho, pois ela ficou de pé em sua frente, prendendo alguma coisa ― flor ou enfeite — nos cabelos. Na sala estava apenas o homem na poltrona e a mulher de amarelo. Vi que ele se levantava, aproximava-se dela, curvava-se. Segurou-lhe o rosto com as duas mãos e deu-lhe um beijo. De pai? De marido, namorado, amante? A penumbra não me deixava distinguir a idade aproximada nem do homem nem da mulher; só a mocidade da moça de branco no quarto, era sensível, como se a sua irradiação juvenil e não apenas a aparência a denunciasse.

O homem voltara para sua poltrona, tive a impressão de que falava, parecia fazer gestos ou brincar com alguma coisa nas mãos. Apareceu novamente o rapaz em mangas de camisa. Mas no quarto, onde talvez se fechara, a mocinha de branco se deixava ficar de pé diante do espelho. Sim, era loura; e imaginei notar, aquela distância, que seus cabelos estavam manchados pelo sol da praia, com trechos mais claros e outros mais escuros.

Acariciou-os um instante na nuca, depois desceu as mãos para os seios, logo para a cintura, as ancas. Estaria talvez se achando gorda ― ou, talvez, menos gorda; de qualquer modo a cintura era fina, o busto belo, o rosto fresco, sadio, os cabelos... voltou aos cabelos, repuxou uma parte deles, prendendo-os atrás; soltou outra parte, aparou-a na nuca, mudou de posição o enfeite, ou flor. Depois recuou dois passos, sempre se olhando; avançou um pé e torceu o corpo, num movimento de bailarina; assim se imobilizou um instante, se admirando; apagou a luz e saiu do quarto.

Esperei vê-la entrar na sala. O homem agora estava acendendo o cigarro da mulher de vermelho; notei que ela também era loura; a mulher de amarelo levantou-se de onde estava, pareceu pegar em alguma coisa, talvez uma revista, sentou-se de costas para a janela. Então entraram simultaneamente ― de um lado dois casais, de outro a mocinha de branco. Houve um movimento; gente que se levantava, se abraçava, se beijava nas faces; depois, lentamente, cada um foi tomando uma posição, se aquietou no seu canto; apenas um dos homens andava para um lado e outro.

Nesse momento alguém me chamou, tive de sair da janela. Demorei-me um pouco lá dentro, fui apresentado a pessoas que chegavam, fiquei a conversar com elas. Quando, meia hora mais tarde, voltei à janela, tive uma decepção: a sala do apartamento em frente estava escura e parecia deserta; apenas a árvore de Natal, a um canto, era vagamente visível, tinha uma leve cintilação, uma lembrança de seus brilhos coloridos.

Aquilo me deu uma tristeza, como se aquela gente, partindo, tivesse abandonado um pouco também a mim. Eu era um estranho, não apenas desconhecido como insuspeitado de existir; e de tudo o que vira nada aprendera de suas vidas, nem de seus sentimentos. Entretanto, durante alguns minutos eu de algum modo participara de suas vidas, eu pousara um pouco de sua intimidade e me sentira dentro do apartamento, como se estivesse vivendo o último ato de uma peça ― uma peça tão natural, tão viva, que não precisava ter nenhum enredo. Deixei a janela, vagamente descoroçoado por eles haverem partido, sem adeus nem aviso, para alguma festa em outro apartamento qualquer.

Servi-me um uísque, sentei-me ao lado de uma senhora que me chamava e retomei, sem muita convicção, o enredo de minha própria noite de Natal.

rubem-braga
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