Não sei se houve, no Brasil, alguma homenagem a Fleming, o inventor da penicilina, que morreu há pouco.
No Chile houve uma, bastante original e comovente; quem a fez foi o escritor Benjamin Subercaseaux, e ele mesmo conta isso em uma crônica para La Nación.
Começa o escritor chileno por dizer que o luto é um velho costume bárbaro, que remonta a noite da pré-história. A dor da morte é demasiado grande; e como o ser humano é eminentemente social, sempre ele procurou no luto um modo de exteriorizar seu sentimento, fazer os outros participarem de sua dor. Mas uma vez estabelecido como regra geral, como coisa obrigatória, o luto passou a ser, em muitos casos, mera questão de hipocrisia. Por esse motivo muitos seres sensíveis, quando perdem algum ente querido, preferem guardar para si sua tristeza.
“Há muitos anos – escreve o cronista de “Chile, o una loca geografía” – não ponho luto. Espero não usá-lo mais, até o dia em que me obriguem a fazê-lo em minha honra, quando me vestirem de negro no ataúde, sem que eu possa impedi-lo.
Apesar disso – continua – há 15 dias que ando com uma roupa cinzenta e uma gravata preta, que por sorte, não chamaram a atenção de ninguém. Um amigo íntimo, entretanto, que sabia muito bem que em minha família não houve morte nenhuma, teve a ideia de me perguntar: “Por quem você está de luto?”, “Por sir Alexander Fleming, o descobridor da penicilina”, respondi. “Ah, você sempre com suas extravagâncias!” exclamou ele.
Na verdade – continua o cronista – não vejo em que consiste a excentricidade. Um homem extraordinário, benfeitor da humanidade a um ponto de que quase não há no mundo quem não lhe deva a vida, morreu em silêncio e em relativa indiferença por parte do povo. A 11 de março deveria ter havido um minuto de silêncio no mundo inteiro”.
Subercaseaux explica, mas salvou-se de uma grave intervenção cirúrgica unicamente graças à atuação dos antibióticos. “Eu sabia que vivia graças a Fleming, o nobre ancião, o perseverante investigador, o homem das longas vigílias obscuras”.
E termina assim:
“Em um mundo em que a ciência e a vida toda parecem se encaminhar para nos tirarem este único tesouro de que dispomos, e no-lo arrebatar para os fins mais medíocres e pecaminosos como são os interesses econômicos de certos grupos assassinos, quero que se erga uma voz pura e agradecida em louvor do branco ancião e sua branca droga, simples materialização de seu imenso amor pela humanidade”.