27 jun 1960

Mulher de nariz arrebitado

Periódico
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Fonte: Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002, 125-126

Tinha medo da mulher. De grito, não; nem de pancada. Tinha medo que ela o enganasse. Era uma mulherzinha de sangue capixaba, misturado com italiano. Pequenina, cintura fina, ponta de nariz arrebitado e narinas frementes. 

Quando dizia uma coisa, fazia. E já lhe dissera mais de uma vez:

– Se eu souber de alguma malandragem sua, pode considerar-se um homem enganado.

Teixeira, um dia, se meteu com um grupo de amigos. Tomaram umas cervejas na cidade. Depois, um do grupo telefonou para a casa de uma amiga e foram todos para lá. Essa amiga convidara mais quatro amigas, todas engraçadinhas, aí por volta dos seus vinte anos. Daí por diante, a bebida foi uísque. Uma delas achou que Teixeira parecia com Gary Cooper. Mentira. Para começar, Teixeira não tinha nem 1,60 metros completos. Mas Teixeira considerou o fato. Às onze horas, lembrou-se que devia telefonar para a mulher. Discou o número. Uma voz de homem atendeu do outro lado da linha e falou apenas:

– O senhor está enganado.

Estava tão impressionado com a possibilidade de a mulher o enganar, que ficou certo de que a desgraça já havia ocorrido. "O senhor está enganado." Só muito tempo depois, admitiu que houvera ligado o número errado. Discou de novo. A mulher atendeu, estremunhada. Ele não teve coragem de falar e desligou. Voltou para junto da moça. Continuou bebendo. Faltavam dez para as três, pegou um táxi e foi para casa. No trajeto, pensou, o tempo inteiro, na probabilidade de a mulher o enganar. Horrorizou-se. Um tremor, dos pés à cabeça, só em pensar que outro homem pudesse tocar-lhe a pele. Mas, se ela disse que fazia, é porque ia fazer mesmo. 

Entrou em casa e, sem os sapatos, caminhou até o quarto. A mulher estava sentada na cama. Pequenininha, cintura fina, as narinas fremindo mais que nunca. A lâmpada de cabeceira acesa e o relógio marcando três horas. Ela perguntou, apenas:

– Que horas são, Teixeira?

Ele olhou o relógio e respondeu, com a voz mais humilde que um homem pode ter:

– Meia-noite e quinze.

Ela deitou-se e puxou as cobertas até o pescoço. Ele pensou que a tapeara e foi-se deitando, também. Ela virou o rosto para ele, sem abrir os olhos, tirou uma mão das cobertas, alisou-se a testa e disse baixinho:

– Vai ser amanhã, ouviu, Teixeira?

antonio-maria