Periódico
Manchete, nº 984
Publicada também nos livros Colunista do morro, de 1965, com o título Revolução, e Cisne de feltro, de 2001.

Tenho saudade da revolução de 1930, isto é, dos meus oito anos. Para os adultos, os acontecimentos se encaminharam dentro duma sequência de fatos, a conflagração era plausível. Mas para mim a revolução foi um milagre, maravilhoso ato gratuito a saltar dum momento inerte, até então infantilmente chato, em que meu pai entrou em casa afobado e renovou minha vida: Estourou a revolução!

O inesperado irrompeu em mim com uma violência alegre, mudando o curso de minhas reinações. Que se reduziam então: a uma valeta coberta de mato, onde me encontrava com peles-vermelhas do tamanho dum palmo; os muros com os quais me comunicava com todos os quintais do quarteirão; as mangueiras, das quais conhecia a forma e a resistência de todos os galhos, as reentrâncias e calosidades de todos os troncos; a noite cheia de jasmins e cavalos; os campos cobertos naquela época do ano de flores amarelas, amarelos que ainda busco em silêncio nos impressionistas; a trilha ressequida do Acaba Mundo; os urubus feios na terra e bonitos no céu. Eu era enfim uma graça de alienado.

 A revolução é uma festa

 Apesar desses campos floridos, estávamos dentro do perímetro urbano de Belo Horizonte, Avenida Paraúna, quase esquina de Contorno.

Tinha voltado do grupo escolar, lavara de meu corpo o pó vermelho que agora se esconde sob o asfalto, vestira a calça comprida da roupa de marinheiro, calçara com dificuldade, com a minha única mão útil, o sapato do pé direito. Foi aí exatamente que rebentou a revolução.

O braço direito estava na tipoia com duas fraturas.

Aderi de coração ao movimento revolucionário quando soube que meu pai nos levava para o bairro da Serra, onde residiam parentes. Meu receio é que os adversários dos rebeldes se entregassem depressa demais.

Juntou-se alguma roupa e seguimos de automóvel para a Serra, medida cautelosa, pois nossa casa ficava perto do Regimento de Cavalaria e não distante do Palácio da Liberdade.

Com um braço quebrado, um pé descalço, as férias caídas do céu, eu não podia reluzir mais de contente, estado luminoso que se chocava com a opacidade baça dos adultos. Foram dias e horas e minutos duma riqueza inumerável, sem aulas para ouvir, sem roupas para mudar, sem a monotonia dos horários. Vermelho de poeira, cor da minha liberdade, vagava pela colina do bairro, bodoqueava as rolinhas, jogava bola na rua, conhecia outros sujeitos da minha idade, ficava sozinho para subir a uma caixa-d'água circundada de pinheiros, e de onde se podia ver e ouvir o 12° Regimento de Infantaria do Exército. 

– Agora é a pesada.

– Não, é a leve.

As metralhadoras estralejavam na cidade deserta ressoante no silêncio civil, sem automóveis, sem verdureiros, sem cargueiros de lenha, sem o sorveteiro esquálido que cruzava as ruas ensolaradas tocando uma buzina, não sei por que, melancólica. 

Disseram-me (não sei se era verdade ou se pretendiam assustar-me) que um homem recebera uma bala no peito num dos bancos da caixa-d'água. Pouco me importava; eu não ia morrer coisa nenhuma. A caixa-d'água me fascinava com seus pinheiros cheirosos, sua limpeza, a faixa de areia clara que cercava a construção e, se não exagero, o perfume da água fresca. Era um espaço para mim; ali minhas aspirações à gratuidade se realizavam em plenitude.

Fascinação e terror eu sentia pela chácara do Sales, grimpada na encosta, cercada de árvores e cães bravos, uma ilha de verdura no morro depenado. Diziam que era um homem cruel, e eu fazia questão de acreditar nisso com o fervor da minha imaginação. Ficava de longe, olhando a casa do homem solitário. Era a primeira vez que a solidão me tentava com o seu romantismo equívoco.

 Um pipizinho na calça

 Foi também uma temporada de fartura, balas, mariola, geleia de mocotó, pois meu tio era dono de armazém.

Um dia chegou um caminhão e desceram dois homens com cara de bandidos. Para minha surpresa, meu tio e um deles se abraçaram como amigos que não se viam há muito tempo. O homem disse que tinha ordem para requisitar a chave da bomba de gasolina. Meu tio, branco, disse que não. Por simples amor à coragem, associei-me a esse gesto e fiquei esperando imóvel como um anjo de igreja. Os dois amigos se encararam com dureza. O do caminhão fez ver que era melhor entregar a chave sem violência. O tio disse que não. O do caminhão, a um sinal do outro, apontou um fuzil sobre o peito do tio, que entregou a chave com vagos protestos. E eu, privilegiado espectador da guerra de 30, de puro e repentino medo fiz um pipizinho na calça comprida – falência que me humilhou durante muitos anos e que agora revelo em primeira mão.

Contavam-se coisas lá de baixo. Um vizinho nosso abrira a janela e recebera um balaço mortal. Tinham cortado a água do Doze e os soldados morriam de sede; depois as torneiras deram água com azul de metileno. Mais tarde, o botim do conflito, cápsulas, granadas, capacetes não chegariam a fazer de mim um guerreiro.

Uma tarde, estava na caixa-d'água quando um avião começou a sobrevoar o quartel do Exército. Aguardei, encantado, o bombardeio. O aviãozinho, lindo, foi e veio, subiu, desceu, lançou qualquer coisa do céu, qualquer coisa que levantou do chão, longe do quartel, um pouco de poeira; depois o aviãozinho foi e veio, subiu, desceu e lançou mais uma bombinha, levantando mais um pouco de poeira. Aí o aviãozinho subiu, desceu, subiu e foi-se embora, voando numa tarde muito anilada, muito linda, muito brasileira, muito sem quê nem pra quê. E eu, espectador feliz, estava lá entre os pinheiros, sem quê nem pra quê, muito lindo, muito brasileirinho, aguardando em paz os emboléus de minha vida.

 A hora dos famintos

 Voltei para casa orgulhoso de ter visto o acontecimento, mas rudemente decepcionado. Achei o bombardeio aéreo uma droga, nada daquilo que imaginara folheando as ilustrações francesas da Grande Guerra.

A Serra se viu invadida por personagens que me obrigaram a outros pensamentos, mulheres, homens e crianças, pardos e pretos, que lá chegavam sujos, esfarrapados, magoados de pavor e fome, as mãos trêmulas. O medo existia, a miséria existia. Vinham desentocaiados da Barroca, do Barro Preto, das favelas de lama que ficavam dentro do campo de batalha. Sentavam-se no chão, cobriam o rosto com as mãos, ficavam esperando. Meu pai costumava distribuir alimento para eles, que agradeciam com olhos humildes e mãos tímidas. Estavam famintos de tudo. Era a primeira vez que a vida levava a sério o pequeno espectador.

paulo-mendes-campos
x
- +