14 maio 1960

Carta para depois

Periódico
Manchete, nº 421
Publicada também no livro Brasil brasileiro, de 2005.

E tendo abordado um avião, depois de duas horas e meia sobrevoava a cidade de Brasília, e era de tardinha quando fui convidado a desembarcar.

E o amigo que me oferecera hospedaria não apareceu, mas um outro me levou para um lugar muito longe chamado Torto, e me deu água para lavar a poeira do rosto e um uísque para lavar a alma.

E enquanto penteava os meus cabelos diante de um espelho partido, vi que chegava a um galho aquele passarinho chamado coleiro; e Brasília teve graça a meus olhos.

E eu disse a meu amigo, depois de ter comido: “Melhor a gente ir à cidade para ver se encontro um homem chamado Geraldo”. Pois este me prometera um lugar em seu apartamento.

E na frente da camioneta ia Pedro, e rodávamos na escuridão por muito tempo, até que apareceu ao longe na planície uma cidade de vidro e de luz, leve e cheia de espaços.

Chegamos pois a um hotel, onde se postavam centenas de automóveis lá fora, enquanto lá dentro passeavam, conversavam ou jantavam muitos homens e muitas mulheres.

O hotel era de mármore e transparência, e as mulheres, graciosas; e lá fora era a noite de Brasília; e da noite chegou um sapinho, que pulava engraçado sobre o tapete, arrancando o grito das virgens e o riso dos rapazes; e era como se o sapinho viesse perguntando “o quê que há”.

E os músicos tocavam, os fotógrafos fotografavam, e os políticos ainda não politicavam, e as mulheres resplendiam, e eu não encontrei Geraldo.

Retornamos pois ao Torto, e os automóveis giravam nos trevos, e era como se fosse uma grande feira.

E na cozinha de uma casa puseram uma cama de molas e um travesseiro de espuma de borracha, e nela pus o meu corpo cansado; e quando apaguei a minha luz, o vagalume acendeu a sua; e no princípio era muito bom brincar de ver o vagalume, mas depois ficou chato e tive de expulsá-lo de meu quarto; e ele foi lá fora, para a noite de Brasília.

E no dia seguinte era véspera de 21 de abril, e o sol do planalto propunha uma parábola luminosa; saí pela poeira da granja, e os homens construíam aviários, os gaviões gavionavam estridentes, e duas araras bobas estilhaçavam há tempos o cristal da manhã.

E tomei café em uma casa amarela com uma piscina azul e branca; e retornei, transportado de gosto, para onde estavam os companheiros, e fui seguido de um cãozinho magro e humilde, e falei com grande barulho para acordar os que dormiam.

Dizendo: “A hora é de vigília; paz no céu e glória nas alturas”.

E puseram um copo de uísque em minha mão, mas estava escrito que eu devia voltar logo depois para a cidade, e lá fui de novo rodando muito tempo de automóvel, e Brasília surgiu-nos outra vez, muito límpida e casta.

E a turba pelas ruas era numerosa e vendiam-se laranjas, maçãs, sanduíches, uvas e águas; e aí encontrei Geraldo e outros companheiros, e enquanto esperávamos a hora da feijoada, passamos uma boa meia hora atirando pedras roliças em garrafas vazias, a fim de ver quem tinha a melhor mira; e quem tinha a melhor mira se chamava Sabino.

Folgamos pois com ingenuidade e me levaram para um apartamento nu, a cavaleiro de uma grande avenida; mas vieram camas e sorteamos em pôquer aberto os melhores aposentos.

E muitos aviões voavam, e carros de todo jeito serpenteavam e caminhões descarregavam móveis e utensílios à porta dos edifícios; e havia muito bom humor e alegria por parte de todos, salvo alguns deputados.

E aconteceu que fomos à Cidade Livre, também chamada Candangolândia; e lá era muito engraçado; e tinha, entre outras, uma loja de pau com o nome de Boutique Ma Griffe; e comprei uma calça cáqui na loja de um sírio careiro à beça; e passou também em desfile o eterno Circo Garcia, exibindo uma zebra, um elefante e uma prateada moça de arame com as coxas lindamente nuas.

À meia-noite celebrou-se a Santa Missa, tendo comparecido fielmente quase todos os automóveis, ônibus e caminhões de Brasília; infelizmente, não pude vê-la, apenas ouvi-la a uma certa distância; e sentimos uma vaga fome, e um homem com chapa de Jabaquara cedeu-nos dois pastéis de carne, que multiplicamos por sete.

Quando acordamos na manhã seguinte, já éramos Capital; e então tomamos cerveja com pão (não achamos café) e nos dirigimos apressados à Praça dos Três Poderes; e quando chegávamos, o presidente ia saindo d’un pas léger, cumprimentando o povo, que o aplaudia; mas tivemos a satisfação de ver de perto o patriarca de Lisboa, meio vermelho e ofegante a subir a rua íngreme.

E com as nossas blusas e calças grossas, entramos, assim mesmo, no Palácio do Congresso, de onde saíam, botando ridículas cartolas na cabeça, os homens importantes; e lá estavam as filhas de Israel, e Samuel, e Pedro Calmon e Josué Montello; e muita, muita gente; e era sobretudo grato ver que o policiamento não se fazia sentir, não se empurrava, nem se barrava ninguém, os candangos subiam e desciam as rampas das duas belas casas dos representantes do povo (Deus o permita!).

A noite foi veneziana; e foi na China que os venezianos aprenderam a fazer fogos de artifício; e eu imaginava a velha Pequim do tempo de Marco Polo e a nova Brasília, bela e cheia de sentido; e ao longo dos séculos, pude ver o sofrimento e a esperança dos homens; e coloquei Brasília ao lado da esperança.

paulo-mendes-campos
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