Periódico
Manchete
Publicada também no livro O cego de Ipanema, de 1960

Há quase cem anos, um colono português morria aos poucos na tapera de uma fazenda mineira, sozinho. Alguém lhe trazia diariamente um pouco de comida. Também aparecia de vez em quando o menino Antônio, para conversar. E como talvez estivesse mais precisado de companhia que de alimento, o moribundo fez de Antônio o seu herdeiro universal: “Quando eu morrer levante o meu colchão, tem um presente para você.”.

Debaixo do colchão de palha estava um punhal. Antônio quis experimentá-lo logo, dando uma espetada na barriga de um jovem escravo. Escondeu-se depois na copa de uma árvore, com medo de que o escravo contasse. Mas o pobre, em silêncio, foi lavar o ferimento no riacho.

Antônio, meu avô, contou-me esse caso quando tinha mais de oitenta anos. Era um homem fascinante e misterioso para mim como um livro de histórias passadas na Ásia; pois tinha a cabeça branca, olhos redondos de pássaro, magro, mãos pintalgadas de manchas, a boca com uma vida própria, submarina, ventas largas, dava gargalhadas alvas, balançava-se ao andar como um navio no movimento de aguagem, arrancava dos bolsos lenços enormes como lençóis, tossia com estrepitoso prazer, pigarreava como um gigante, contava casos e mais casos, sem omitir as palavras próprias, por mais feias que fossem, muito limpo, detestava o frio, ria-se do mundo e vestia-se de preto da cabeça aos pés. Parecia um homem do mar, talvez houvesse nascido para a virilidade do mar nos dias ásperos da rainha Vitória, tudo nele lembrava um marinheiro hiante em sua aposentadoria irreverente; mas vivera toda a sua longa vida nas montanhas de Minas, irrequieto, não parando em lugar algum, desobediente, sem método, cheio de juventude. Não era marinheiro, era padre. Um padre que rezava depressa as suas missas, de madrugada, um padre pai de dez filhos e que zombava das beatas que o amolavam com escrúpulos bobos. Mas, se era padre, não há motivo para risos de malícia, pois Antônio Motinha de Sousa Lima não infringira os mandamentos da castidade: ordenando-se depois de viúvo, abandonou a sua vida de rábula. Não quis foi isolar-se romanticamente num convento. Era um verdadeiro padre do século, andarilho, um padre da rua, do sol, da chuva, da roça e da cidade, sempre encontrado dentro de vagões de estrada de ferro ou no lombo de um burro. Invariavelmente vinha e ia, nunca se demorava. Eu o olhava com os olhos tímidos e satisfeitos de uma criança que se diverte ao máximo com a falta de lógica do mundo adulto.

Sofria meu avô a tentação vertiginosa do despojamento: dava todos os seus objetos pouco depois de comprados, dava todos os presentes que recebia, dava dinheiro, sapatos, bengalas, galinhas, leitões, livros, brinquedos, crucifixos, carteiras de cigarros, breviários, fumo de rolo, porta-níqueis de metal trançado, santos e santas, tudo que se podia ver e pegar ardia em suas mãos; intimava os outros a receber suas ofertas, dava com uma energia de quem toma. Da voragem de seus bolsos insondáveis, via eu saltar a incongruência do mundo e o seu descaso à propriedade. Uma vez, voltava do alfaiate de batina nova e, encontrando-se com um colega de batina esfarrapada, obrigou este santo vigário de Cristo a trocar com ele de vestimenta. Foi um torneio de pobreza, que meu avô só abandonou, como sempre, depois de ter vencido.

Brigão nos seus tempos leigos, as vestes talares jamais conseguiram conter os seus acessos de indignação. Não que provocasse, pelo contrário, mas era do tipo perigoso das pessoas que não levam desaforo para casa. Relatava na velhice com irreprimida alegria as suas turras físicas, auxiliadas, quando fosse o caso, com o uso de bengala, faca, porrete, guarda-chuva ou garrucha. Nunca matou ninguém (quase, no dia em que surrava um valdevinos e inadvertidamente ia-lhe enfiando o estoque da bengala), mas viveu oitenta e três anos para narrar, dando risadas, as suas valentias. A um genro que lhe observou certa feita que ele nunca apanhava, mas sempre batia, apesar de não ser um homem robusto, respondeu que seu sangue esquentava primeiro, e isso compensava as desvantagens de outras ordens. Sim, seu sangue esquentava e esfriava primeiro (não remoía rancores), o padre Antônio tinha apetite; mas, desconfio, o Senhor devia estar de seu lado, pondo complacências sobre a cabeça desse seu filho muito mais do Velho que do Novo Testamento.

Já octogenário, atirou pedras e insultos de baixo calão em um sírio que o chamara de urubu, depois de um encontrão desajeitado ao descer do bonde. Foi o seu último round.

Quando recebi o telegrama de sua morte, estava na forma do colégio interno, a caminho do refeitório, com aquela fome extraordinária da pubescência. Com água nos olhos e na boca, deixei o meu prato vazio. A fome não passara com a notícia triste, antes se fizera mais atuante; mas não comia, achava que o meu dever era ficar sem jantar. O assistente perguntou-me se estava sentindo alguma coisa. Respondi-lhe com muito orgulho que não: “Meu avô morreu”.

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