Fonte: coluna "O homem e a fábula",  Jornal do Brasil,  13/07/1962. Publicada, anteriormente, no livro Os olhos dourados do ódio., de 1960, pp. 139-140., com o título Paris.

Falarei dos meus desejos. De Paris, que namoro de longe há dez anos. Tive a oportunidade, algumas vezes, de passar alguns dias em Paris. Fiquei aqui. Não sei visitar cidades; o turismo não me interessa. Mas poucos sabem ir ficando num lugar até pertencer a esse lugar, e eu sei. Qualquer lugar. Aproprio-me das paisagens, do ar, das pessoas, dos assuntos locais, com uma espécie de fervorosa preguiça; não tenho pressa, não observo nada de relance; mergulho na realidade, perco-me nela, somos uma só coisa depois de certo tempo. O amor, que é o mais difícil dos trabalhos, exige tempo integral. E não sei ver, nem sentir, nem compreender aquilo que ainda não amo. Só depois de um mês de frequência é que deixo de ser um sonâmbulo; só vejo depois disso; só amo aquilo que me recuso a amar e que, na recusa, permanece atraente; aquilo que me subjuga; aquilo que odeio no princípio, porque a novidade é sempre odiosa. O traço essencial do meu caráter é a selvageria. Por conseguinte, o meu modo de amar é um modo de renunciar a um sentimento inato de hostilidade para com todos e com tudo. Firmo pactos de não-agressão; depois, começo a compreender; pela inteligência, chego finalmente ao amor, que é um adro onde o sol aquece e a brisa refresca.

Quietude. Repetições. Estar amando é um modo de contemplar reflexivamente aquilo a que já nos habituamos. Quem não tem boa memória não se certifica jamais deste sentimento. Incorporei a minha amada às minhas mais secretas riquezas; o amor é tanto menos verdadeiro quanto mais ostensivo. Amar é um modo de fingir que não se ama; os grandes distraídos são os melhores amantes. Parecem frases, estas frases e, no entanto refletem com precisão um fato que neste momento me enternece: amo a literatura.  Sim, as palavras com que componho um buquê de flores. O meu entendimento, pelo amor, abranda-se; a inteligência é leve, superficial, delicada como o punho da brisa que faz a rosa inclinar-se. Com meu consentimento, o tempo passa; o corpo respira, o coração bate, o espírito se exerce no silêncio; o tempo passa. Não sou mais um guerreiro em vigília; sou uma rosa atenta;  a mancha violácea do entardecer na nuvem; a própria nuvem que se desmancha. Assim quero dizer que amo a literatura e que, pelo meu esforço,  muitas vezes por ela sou amado,  Pelo meu esforço e pelo meu desprendimento; pela minha falta de usura.

― E Paris?

Muito bem. Continuarei a enumeração dos meus desejos.

jose-carlos-oliveira