Fonte: Os olhos dourados do ódio. Rio de Janeiro, José Álvaro Editor, 1960, pp. 139-140.

Falarei dos meus desejos. De Paris, que namoro de longe há dez anos. Malbaratei muitas oportunidades de passar alguns dias em Paris. Fiquei aqui. Não sei visitar cidades: o turismo não me interessa. Mas poucos sabem ir ficando num lugar até pertencer a esse lugar, e eu sei. Qualquer lugar. Aproprio-me das paisagens, do ar, das pessoas, dos assuntos locais, com uma espécie de fervorosa preguiça; não tenho pressa, não observo nada de relance; mergulho na realidade, perco-me nela, depois de certo tempo somos uma só coisa. O amor, que é o mais difícil dos trabalhos, exige tempo integral. E não sei ver, nem sentir, nem compreender aquilo que ainda não amo. Só depois de um mês de frequência é que deixo de ser um sonâmbulo; só vejo depois disso; só amo aquilo que me subjuga; aquilo que odeio no princípio, por que a novidade é sempre odiosa. O traço essencial do meu caráter é a selvageria. Por conseguinte, o meu modo de amar é um modo de renunciar a um sentimento inato de hostilidade para com todos e com tudo. Firmo pactos de não-agressão; depois, começo a compreender; pela inteligência, chego finalmente ao amor, e o deserto se torna fecundo. 

Quietude. Repetições. Estar amando é um modo de contemplar reflexivamente aquilo a que já nos habituamos. Incorporei a minha amada às minhas mais secretas riquezas; o amor é tanto menos verdadeiro quanto mais ostensivo. Amar é um modo de fingir que não se ama; os grandes distraídos são os melhores amantes. Parecem frases, estas frases e, no entanto, manifestam com clareza um fato que neste momento me faz feliz: amo a literatura. Sim, as palavras com que componho um buquê de flores. O meu entendimento, graças ao amor, abranda-se; a inteligência é leve, superficial, delicada como o punho da brisa que faz a rosa inclinar-se. Com meu consentimento, o tempo passa; o corpo respira, o coração bate, o espírito se exerce no silêncio; o tempo passa. Hoje não sou um guerreiro em prontidão; sou uma rosa desatenta; a mancha violácea do entardecer na nuvem; a própria nuvem que se desmancha; aquele vento que a desmancha. Assim quero dizer que amo a literatura e que, graças à minha dedicação, muitas vezes por ela sou amado. Por dedicação e desprendimento; por falta de usura.

― E Paris?

Muito bem. Continuarei a enumeração de desejos.

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