Fonte: Jornal do Brasil,  coluna O homem e a fábula, de 6/04/1962.

Tirei os dois ovos da água fervente e esperei que esfriassem. Era madrugada; minha vida, como já disse, não tinha mais sentido. Apanhei um ovo, quebrei-o na mesa e comecei a descascá-lo. Então, sob a casca, alguma coisa me fez estremecer. Um movimento; algo que se deslocava; na cozinha mal iluminada, vi nitidamente a cabeça hirsuta do pintinho que estava dentro da casca. Repugnado, larguei o ovo na mesa e fui lavar as mãos. Mas aquilo não fazia sentido, pois o ovo estivera numa água que ferveu durante cinco minutos e era inconcebível que depois disso o pintinho ainda estertorasse. Resolvi examiná-lo novamente, e então compreendi que fora vítima de uma alucinação visual. Isso me impressionou durante um minuto, mas logo voltei a pensar na minha existência vazia, enquanto comia os ovos cozidos. 

Voltei à sala. Apanhei o romance de Ivan Turgueniev, que me obrigara a ler embora o julgasse fastidioso. (Provavelmente a tradução brasileira não era boa.) Muito bem; o mesmo choque que me paralisara perante o ovo me fez contemplar atônito, o título do livro: Vida nova. Vida nova; pintinho no ovo. Aquilo que ruge no sangue, o instinto, a porção mais terrestre e invencível do ser me enviava mensagens cifradas. Nos subterrâneos da minha alma conspirava-se pelo meu nascimento. Mas quem nasceria? Quem era eu? De que maneira, amanhã, outro homem transpareceria nos meus olhos?

Sou o mais inconstante amigo dos meus sonhos. Aos 18 anos, pretendia que aos 20 escreveria meu primeiro romance; aos 20, prometi que esse projeto se realizaria dentro de cinco anos; agora fico esperando completar 30 anos para começar a ser eu mesmo. Sobreviver; fazer; empolgar este punhado de poeira a ponto de lhe conferir um brilho de primeira grandeza; tudo anseios de homem que tanto podem cumprir-se como arder para sempre na consciência insatisfeita. 

O episódio do ovo e do romance de Turgueniev ocorreu há algum tempo. Esqueci-o, desprezei o seu significado; fui infiel, outra vez, ao meu instinto. E eis agora a insatisfação, o azinhavre da amargura estragando os meus dias; olho para trás e não encontro nada que me dignifique; olho para a frente e encontro a sombra; na clara luz do presente dia, a vacilação e o desânimo me acompanham.

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