Fonte: Jornal do Brasil, coluna O homem e a fábula, de 5/04/1962..

Há muitos dias não leio nada. Trabalho pouco e mal. Uma velha ferida voltou a sangrar; com olhos pálidos, observo que a minha existência tem sido insípida. A minha vida tem sido um sonho sem graça – nem pesadelo, nem delírio – de que acordo, amargurado, de tempos em tempos; mas volto a dormir, e me esqueço, e novamente acordo amargurado. A minha vida não tem sido aquilo que eu almejava. Não tenho sido um homem sério. Eu não tenho sido um homem sério. Eu sou um existente sem existência. Mas agora sofro as consequências: estou aborrecido comigo mesmo e, vendo o meu rosto no espelho, cumprimento-o severamente: “Bom dia, canalha”.

Não tenho paciência para ler, mas me obrigo a folhear um romance de Turgueniev. Aquelas cenas, aquelas conversas me amolam. Não dou valor algum à literatura. Mas me obrigo a ler. Todas as contradições da sociedade brasileira, o impasse em que nos encontramos, a dificuldade de escolher um destino – a atualidade nacional, em suma, se individualiza em mim. Habituei-me, por má fé, a perguntar: “Para onde vamos?” Porque a pergunta honesta só pode ser esta: “Para onde estou indo eu?” E eis a resposta amaldiçoada: “Não estou indo a parte alguma; estou sendo ido; sem fibra, não tenho como opor resistência ao tempo e ao acaso.” Tenho ouvido falar de pessoas gravemente queimadas em todo o corpo, que em certos momentos experimentam a mais extravagante satisfação. Elas passam muito tempo deitadas de um lado, suportando a dor nesse lado; é horrível. Então, quando se cansam, viram-se para o outro lado, no qual a dor se instalará lancinante. Na posição anterior, o sofrimento havia envelhecido, era uma pulsação dolorida; mas na atual posição a coisa é lancinante; e é justamente nesse sofrimento renovado que se compraz o doente. O que se passa na minha consciência, neste momento, é a mesma coisa: acabo de renunciar a uma posição incomodamente anestesiante, e em consequência o sofrimento me fere vivamente. Não se deve fingir que é cicatriz aquilo que na verdade é chaga aberta.

Então, a pretexto de comer alguma coisa, abandono Turgueniev. Tenho fome de ovos cozidos. Ponho a água a ferver, e nela dois ovos. Fico esperando. Um pequeno futuro me espera: daqui a pouco os ovos estarão cozidos, e isso me alivia um pouco. Tenho cinco minutos para ocupar-me de algo real, e se pudesse passaria a vida cozendo ovos e esquecendo.

(Continua amanhã)

jose-carlos-oliveira