26 jun 1919

O Jardim Botânico e suas palmeiras

Periódico
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Publicada, posteriormente, no livro Marginália. São Paulo, Brasiliense, 1956, p. 92 Fonte: Toda crônica. Apresentação e notas de Beatriz Resende; organização de Rachel Valença. Rio de Janeiro, Agir, 2004, vol. I, p. 527.

Essas gentes novas, e o espírito frívolo delas, que têm ultimamente invadido este meu Rio de Janeiro vão, aos poucos, matando o que ele tinha de verdadeiramente belo. À parte a violação da natureza, grandiosa, majestosa, como toda grandeza e majestade – triste, por ser aquilo mesmo – pode-se ver nas suas novas construções como esses adventícios e o seu feitio mental se apartam da terra em que elas se erguem ou são mandadas erguer.

Nas construções oficiais, oficiosas e particulares, é raro ver o emprego do granito do Rio. Tudo é tijolo, e o velho granito do Rio, tão velho quanto a terra, não é empregado senão no estritamente necessário aos alicerces e aos baldrames.

Viollet-le-Duc encontrava como regra geral obedecida pelos arquitetos das catedrais do Medievo o aproveitamento do material de construção que encontravam nos arredores do lugar em que tinham de erguê-las. As nossas igrejas do século XVIII, a não ser um ornato ou outro de lioz lisboeta, obedecem a esse princípio. Em todas elas o nosso granito, em que a mica faísca e as granadas pequeninas brilham mestiças, a pedra de cantaria domina, e é a pedra do Rio de Janeiro.

Sob a ação do tempo, devido à ação química dos princípios de que as águas meteóricas vêm carregadas, o granito enegrece, como a pedra calcária das catedrais góticas também. Aqui usam “picotar” (creio que os pedreiros chamam assim); lá, porém, não; deixam tal e qual. É a pátina do tempo e o encanto superior das grandes obras que só o tempo sabe dar.

O que não se faz com o tempo, o tempo nunca ou quase nunca respeita...

Por falar nisso: a um amigo que foi à Europa, há anos, perguntei:

– Que achaste da “Notre-Dame”!

– Não gostei... Tudo negro, negro, negro... Parece F.

Esse F. era um deputado negro muito popular naqueles anos. É o caso de se observar que todo brasileiro finge quizília com os negros; mas os mulatos não cessam de nascer, e alguns maravilhosos...

Ia eu dizendo, porém, que as nossas construções ultramodernas e ultrachiques são hediondas. As “vilas” (que nome!) que se veem pelos arredores atuais do Rio de Janeiro, porque não há um, por mais modesto, que as não tenha; as tais “vilas”, continuo, não se enquadram absolutamente na paisagem. São petulantes e catitas, para a força e vigor da paisagem; e são acanhadas e mofinas para a amplidão e as fortes sugestões dos horizontes. Antes aquelas velhas casas coloniais, de colunas heterodoxas, acaçapadas, como se sentindo humildes e efêmeras diante do sentimento de eternidade que transpirava das serras circundantes.

A municipalidade, principalmente os prefeitos – gente em geral que não nasceu no Rio e nunca nele plenamente viveu – tem concorrido para isso.

Por panurgismo, todos eles foram morar em Botafogo, e de Botafogo para Copacabana, encaminhando para aí todos os seus esforços e verbas municipais de melhoramentos; e os outros, cariocas ou não, panurgianos ricos, vão para lá docilmente, ovinamente. Seguem o tinido da campainha da “madrinha”...

É incrível que, tendo a natureza nos dado uma baía abrigadíssima e terras e terras para construir cidades sob o seu abrigo, fôssemos nós continuar e aumentar o que temos, sob o açoite constante dos impiedosos ventos do sul. É incrível; é, porém, o que está se dando. Econômica ou financeiramente, eu poderia explicar isto melhor; entretanto, apesar do meu nenhum latim, sugestiono os motivos desse absurdo proceder da nossa edilidade com a frase de Virgílio bem conhecida: “auri sacra fames!”

A nossa burguesia republicana é a mais inepta de todas as burguesias. Não tem gosto, não tem arte, não possui o mais elementar sentimento da natureza. Há nela pressa em tudo: no galgar posições, no construir, no amor, no ganhar dinheiro, etc. Vai, nessa carreira, atropelando, vai matando, vai empurrando tudo e todos; e, como não tenha educação, cultura e instrução, quando se apossa do dinheiro, ganho bem ou mal, não sabe refletir como aplicá-lo, num gesto próprio e seu; então, imita o idiota que procura comprar o que for caro, porque será decerto o mais belo.

É por isso que ela se está amontoando nas praias de fora da barra, construindo casas em cima de areias e restingas, sob o açoite dos ventos implacáveis e fortes, onde não poderão medrar pujantes as grandes fruteiras, mangueiras, jaqueiras, cajazeiros, que são ainda o encanto das velhas chácaras que herdamos da burguesia titulada do Império e mesmo da Colônia.

Quando, meu Deus, ficaremos livres da burguesia?!

O Jardim Botânico, um dos recantos mais belos do Rio, com as suas palmeiras hieráticas, os seus bambuais em ogiva, as suas alamedas cheias do murmúrio das plantas e do queixume do passaredo, está abandonado.

Ninguém mais vai lá; ninguém mais fala nele. As crônicas elegantes das praias não têm uma palavra de saudade para aquele canto do Rio, tão belo, com o seu fundo verde-negro de montanha, em que a água, ao sol, cascateia prata. Ninguém mais fala nele; mas o jardim está cheio de um século de arrulhos de amores honestos, semi-honestos e mesmo desonestos completamente. Seja como for, e em todo o caso, tem ele cem anos de serviços ao Amor.

E se, como dizem, Vênus é uma deusa vingativa, ela deve ser por isso mesmo agradecida e lembrada dos que lhe prestaram homenagem constante.

Esta panurgiana burguesia atual voltará ao nada; e as palmeiras do jardim – estou bem certo – ainda hão de tornar a ser a guarda de honra imperial, perfilada em continência, aos que forem sacrificar no templo da Deusa, filha do Mar e da Praia...

lima-barreto