Fonte: O mais estranho dos países: crônicas e perfis, Companhia das Letras, 2013, pp. 223-226.  Publicada, originalmente, na Manchete, de 20/03/1965 e, posteriormente, no Jornal do Brasil, de 19/02/1989, sob o título "Memórias de Vinicius de Moraes", com pequenas alterações.  A versão original foi publicada, também, no livro Murais de Vinicius e outros perfis, Civilização Brasileira, de 2000, pp. 25-27.

O poeta brasileiro que nem eu, vivia então em Paris. Depois de ter trabalhado a angústia durante muitos anos, chegara a um estado de intangibilidade quase absoluta: a dor que vem de dentro não o tocava mais, só a dor que vem de fora. Pequenos contratempos cotidianos não mais o afetavam; pelo outro lado, tinha torcido o pescoço da inquietação metafísica. Convencido de que o homem deve reformar-se, corrigir-se, e de que um outro tempo de construções aguarda a humanidade, fazia de sua existência o reflexo antecipado dessa esperança, dessa ternura que se projeta no futuro. Fatos e ideias que circulavam fora dessa órbita não mais o interessavam.

Já adivinharam: Vinicius de Moraes.

Aí entra o automóvel. Vi o poeta perder o seu único bem material, o carro, como quem perde um embrulho de camisa velha.

A aurora entrava no céu e tínhamos fome de sopa de cebola e sede de vinho branco. Fomos ao mercado (Les Halles) e nos fartamos; e o dia esquentou e começou a arder nos olhos. Vagamos sem direção pela grande feira até que a fadiga corporal nos fez fatigados de criaturas e hortaliças.

Mas... cadê o carro? Caminhamos mais um pouco, fizemos um esforço para lembrar onde ele estava, e nada. Quis eu insistir, varejar todas as redondezas, mas o poeta se opôs. Vinicius tomou um táxi que passava, me deixou no hotel e foi para casa.

No dia seguinte, às seis horas da tarde, novamente nos encontramos. "Achou o carro?", perguntei logo. "Não", ele respondeu distraído, "a polícia o procura". E acrescentou no mesmo tom: "Mas acha que foi roubado".

De fato, duas ou três horas depois a polícia informava por telefone de que desistira de encontrar o automóvel. O poeta começou a rir e explicou que traçara todos os planos para viajar de carro no dia seguinte para Cannes. Chamou o garçom amigo, que se encarregou de providenc:iar uma passagem de trem. Insisti com ele, e outras pessoas presentes me secundaram, que tomássemos um táxi e refizéssemos o itinerário da véspera. Sorriu com uma bizarra tranquilidade, que eu só imaginava possível no País da Maravilhas de Alice. E disse isto: "Nem que fosse um Rolls-Royce último modelo eu largaria agora o meu uísquinho".

Alta madrugada, concordou que déssemos uma batida rápida no local. Meia hora depois encontramos o carro, direitinho, talvez só um pouco assustado pelo desaparecimento do dono. Aí fomos dar uma voltinha e, ao passar pela ponte Mirabeau, Vinicius murmurou aqueles versos definitivos sobre o sortilégio do tempo e do amor:

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
             Et nos amours
           Faut-il qu'il m' en souvienne
La joie venait toujours après la peine
Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Wilhelm Apollinaris Kostrowitsky foi um coração formidável, da mesma marca do coração de Vinicius de Moraes. Tornou-se poeta e amigo de seus amigos sob o nome de Guillaume Apollinaire. Eram dele os versos recitados.

 

Ora, aconteceu então o segundo caso extraordinário. A janela do meu quarto no hotel Montalambert dava para os fundos da igreja São Tomás de Aquino. Eu estava prostrado na cama depois de ter flanado um dia inteiro. De repente os sinos da igreja começaram a tocar, lá fora e dentro de mim, e eu me levantei e escrevi umas linhas descompassadas, que peço licença de transcrever aqui, para a mais clara compreensão do texto:

 

        Na igreja São Tomás de Aquino
        meu bom Appolinaire se casou.
        De manhã, de tarde, não sei,
        seu coração se alvoroçou.
        Doeu no ar o som do sino
        na igreja São Tomás de Aquino
        quando Apollinaire se casou.
        Não se vê se o tempo passou.
        Sei que me dói o som do sino
        de quando Guillaume se casou.
        O sino bate, o sino fere, o mesmo sino
        De quando a Grande Guerra terminou.

        Próximo a São Tomás de Aquino
        um quarto de hotel me fechou
        quando para mim caiu o sino
        que para as bodas soou.

        Na igreja São Tomás de Aquino
        meu coração não repousou.

Versos sem importância, pobres, mas inelutáveis, inclusive em sua desunidade rítmica. Eu me lembrava do ano em que Apollinaire se casou naquela igreja: 1918. Mas ignorava o dia.

Semanas depois, consultando um livro, vi com doce encanto que a data de casamento de Apollinaire aniversariava com o dia no qual escrevi o poeminha: 4 de maio. Sorri como quem recebe uma confidência feliz.

Eu entrara no circuito Apollinaire-Vinicius.

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