Fonte: Diário Carioca, de 18/04/1948.

A pior coisa que se pode dizer a meu respeito (entretanto desmentirei) é que não li Proust. Posso perfeitamente em qualquer salão discorrer sobre Swan, descrever Combray ou Balbec, falar de Albertina ou da senhora duquesa de Guermantes — mas ler mesmo, no duro, aqueles volumes todos, isso é duvidoso que eu tenha feito. Houve um tempo em que todos os jovens intelectuais se julgavam a escrever um ensaio sobre Proust e nem isto eu fiz. Entretanto não existe ninguém hoje mais autorizado neste país a falar sobre Proust.

É verdade que acaba de chegar de regresso da França o meu particular amigo don Carlos de Reverbel, outro proustista eminente, sem dúvida alguma o segundo proustista brasileiro. Mas acredito que don Carlos tenha a honestidade de confessar que nunca morou no quarto andar da rua Hamelin 44; eu é que morava no quarto andar. Ele teve, entretanto, a honra de subir as escadas e ir lá várias vezes me visitar.

Sabíamos que Proust havia morrido por ali, mas alguém nos dera o número da casa errado e quando fomos lá esbarramos com a sede de um sindicato qualquer. Só agora, lendo um livro de Léon Pierre-Quint, conheço a verdade: Proust morava no meu apartamento. Bem que me parecia suspeita aquela velha cama, bem que notei certos estremecimentos nas cortinas e pressenti no tapete desbotado e encardido, o rastro de antigos pés que o pisaram em noites de insônia, vagas nódoas de remédio.

Vinte e cinco anos atrás, quando eu chegava vestido de marinheiro, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro trazido pela minha irmã para ver a Exposição do Centenário — Proust estava morrendo naquela minha futura cama. É certo que, mais pobre do que ele, não aluguei todo o andar — e nos contentamos, eu e minha mulher, com um quarto de frente com uma pequena entrada e um exíguo banheiro. (Posso informar com a maior segurança que pelo menos nos últimos anos de sua vida, Proust não tomou um só banho de chuveiro). A banheira tinha velhas manchas de sujos imemoriais o que nos convenceu de que devíamos comprar um chuveirinho de borracha, que adaptamos à pia. Léon Pierre-Quint diz que Proust escolheu um quarto muito frio, temendo que a calefação central fizesse mal para a sua asma; era evidentemente o meu e o imagino perfeitamente, como eu, olhando pela vidraça a rua lá em baixo e esfregando as mãos de frio. Para ele o andar todo custava 16.000 francos: achava os móveis sombrios e dizia que aquilo parecia “a casa de um criado”; deve se consolar com a ideia de que paguei 6 000 francos só pelo quarto da frente.

Às vezes pela madrugada ele despachava Odilon em um táxi para procurar algum amigo que viesse conversar com ele. Imagino-o perfeitamente à espera, escutando o gemido agônico do pequeno elevador que, no quarto andar, para perigosamente entre dois degraus de escada, a velha escada escura onde os passos ressoam absurdamente alto.

O amigo o encontrava na cama, com um lenço ao pescoço, vestido embaixo dos cobertores, com luvas de algodão, muitos pares de meia e o plastron branco sobre a camisa amarrotada, no quarto fechado cheirando a remédios, a asma, a pneumonia a fumigações, a Proust. Eu positivamente ainda recolhi ali um pouco desse cheiro, dentro do qual foi escrito o último volume de Sodoma e Gomorra; na minha ignorância de bárbaro devo ter gasto uma boa parte dele, abrindo de par em par as portas que dão para a sacada; mas acho que ainda ficou muita coisa. Proust cochilava três dias à custa de veronal e depois ficava três dias desperto à custa de cafeína, falando de literatura, de pintura (os jovens Giradoux, Picasso...) recitando Anatole ou Baudelaire, discutindo finanças e mundanismo, falando em mandar vir seus livros, seus móveis, suas coisas, o que nunca chegou a fazer.

Os jovens intelectuais que desejarem escrever sobre tudo isto tenham a bondade de consultar-me para fazer ambiente; posso, por exemplo, descrever lá embaixo o cubículo onde a velha concierge (positivamente a mesma da era proustiana) faz contas, telefona (Passy, Soixante-et-un deux fois, é assim que se diz Passy 61-61, é assim que se telefona para Proust), dorme e passa roupa a ferro e nos apresenta a conta e nos transmite recados, ou confessa que se esqueceu de mandar vir nossa roupa da lavanderia.

Vinte cinco anos para um casarão de Paris não é nada; podemos dizer confusamente que ali moravam don Carlos de Reverbel, Marcel Proust e Rubem Braga — os dois últimos, note-se bem, no quarto andar...