Fonte: Crônicas efêmeras: João do Rio na Revista da Semana.  Pesquisa e apresentação de Niobe Abreu Peixoto, São Paulo, Ateliê Editorial, 2001, pp. 128-129. Publicada originalmente na Revista da Semana, em 9 de setembro de 1916, sob o pseudônimo Joe.

Sempre que conversamos, ouço-a dizer: 

— Mas que bom humor o seu! 

Parece que definitivamente o meu bom humor a espanta. Numa terra do spleen solar, da neurastenia generalizada e daquela fúria estática fixada na tela do Latour com nome de inveja, será o bom humor espantoso? 

Devo dizer-lhe que o bom humor é uma atitude defensiva muito agradável. Se considerarmos a sério a vida, veremos que ela é uma continua série de amargores, desilusões, contrariedades. Os Goncourt uma vez tomaram o tipo do homem feliz: com renda para não ter preocupações de dinheiro; com um anonimato capaz de lhe dar a ausência de ataques; com o suficiente egoísmo para não amar. E depois disso, mostram como cada hora dessa vida feliz era uma hora cheia de pequenos aborrecimentos e de contrariedades atrozes na sua insignificância: — uma dor no pé, o botão do colarinho que rebenta quando se tem pressa, o chá que está frio quando o queremos quente. 

Por essa felicidade medíocre podemos pensar no tormento da vida das pessoas grandemente felizes! O próprio Goncourt que sobreviveu ao irmão, rico com coleções maravilhosas de arte, a glória universal, vivia na saudade do irmão, com uma grave moléstia, e até dias antes de morrer, dois dias antes, recebia cartas anônimas insultando-o! Quem o conta é outro grande infeliz notável, Alphonse Daudet nas Notes sur la vie

Eu nunca pude pensar numa figura de destaque sem um profundo sentimento de piedade. Dá-me vontade de abraçá-la chorando. E por isso rio e faço frases de bom humor. 

Se a mulher é linda e tem recursos, diz-se dela o que não se diz nem de um literato em evidência no Brasil. Ela sofre pela calúnia, pela inveja, pelo que os seus sentimentos possam ter de incompreendidos, pelo receio da beleza das outras. Se a mulher é inteligente, haverá tormento maior? 

Com os homens é a mesma coisa. Mais. Há todas as pequenas contrariedades, o amargor de se ver incompreendido, a calúnia, o insulto, o ódio gratuito, e mesmo com muito dinheiro ou muita glória — a imaginação. Pensou algum dia no que seja a imaginação? Adão sabia tanto quanto Deus e os anjos discutiam a sua personalidade com manifesta má vontade. Ele era feliz. E a imaginação fê-lo tocar na árvore proibida. Perdeu-se. Todos nós somos perdidos pela imaginação, isto é, temos a sensação do inatingido, de que falhamos ao nosso ideal, àquilo de que nos julgávamos capazes. Quanto mais inteligente mais sofredor. E nada mais lancinante do que um artista cheio de glória e dinheiro, cumprimentado por uma obra e tendo a certeza que poderia fazê-la muito melhor. 

Daí o bom humor como derivativo. Os apólogos e os paradoxos de Oscar Wilde não foram senão uma atitude. As pilhérias elegantes de Eça de Queirós, nunca tiveram outra causa, causa que se pode resumir do seguinte modo: compreensão do próprio sofrimento com pena do gênero humano. 

Estou certo de que Rabelais, quando escreveu: le rire est propre de l'homme antecipava apenas o Figaro de Beaumarchais... 

Mas decididamente a melancolia é um ar dos livros. Fechemos os livros, para conservar a grande defesa do bom humor que é a aparência da saúde da alma — que ninguém pode ter. Minha cara amiga, riamos. Pelo menos o bom humor permite fazer justiça... 

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