Fonte: A volta por cima, Record, 1990, pp. 109-112.

Ouça a crônica de Fernando Sabino na voz da cantora Verônica Sabino.

Era um bolo enorme, todo enfeitado e confeitado, que ela carregava pela rua nas mãos espalmadas. Feito de encomenda numa doceira do bairro para o aniversário da filha no dia seguinte, nem enrolado estava: tinha uma inscrição de chocolate e glacê dizendo "18 anos – seja feliz”, que deveria chegar em casa intacta. Tomar um táxi era impossível, com um bolo daquele tamanho, e a sua casa era perto, tinha que ir mesmo a pé.

Pois lá ia ela pela rua, meio curvada para a frente ao peso da deliciosa surpresa para a filha, que, na graça dos seus dezoito anos em flor, merecia todos os sacrifícios.

Mas não aquele que parecia ameaçá-la, quando se deteve no cruzamento, esperando que o sinal se abrisse. Seria demais que se desse justamente naquela situação, as mãos ocupadas, sem poder reagir. Pois era mesmo o que ia lhe acontecer, tinha certeza: aquele sujeito parado a seu lado, também à espera do sinal, com o olhar fixo no cordão de ouro em seu pescoço, a pombinha de ouro dependurada ao peito.

Ou estaria olhando só para o peito?

Não havia como se enganar: tinha cara de assaltante  – o que quer que isto significasse. Sentindo-se completamente indefesa, resolveu ir logo às últimas:

–  Você não está pensando em me assaltar, está? O homem arregalou os olhos com ar de doido:

– Não estava não, mas é uma boa ideia.

No que falou, deu um puxão na correntinha de ouro, conseguindo arrebentá-la. E o fez de maneira tão desastrada que arrebentou também a alça da blusa. Ela viu estarrecida a blusa arrear de um lado e, com o movimento que fez para se proteger, um seio pulou para fora do sutiã, onde a pombinha de ouro foi se alojar.

O bolo era um trambolho nas suas mãos, não tinha como se defender. Seu primeiro impulso foi o de pregá-lo na cara do assaltante, mas se conteve, pensando na filha, e o prejuízo que teria – havia custado caro, não podia desperdiçá-lo assim. Botar a boca no mundo não adiantava: estava cercada de gente esperando que o sinal se abrisse, e ninguém tomou sua defesa, houve mesmo até quem risse. Tudo isto, é claro, se deu em poucos segundos.

Ela se voltou para um homem a seu lado: – Segura aqui para mim, por favor..

Bem-apessoado, o homem parecia confiável. Entregou-lhe sem maior cerimônia o bolo e, mulher de peito, partiu de tapa para cima do outro que, desavergonhado, tentava ainda recolher o cordão emaranhado na sua blusa:

– Toma, seu cachorro, para você aprender.

Era um tipo franzino, mais para pobre-diabo que para criminoso. Vendo as coisas pretas, livrou-se da pancadaria fugindo em disparada.

Mal refeita do incidente, ela pôde enfim recolher o seio dentro do sutiã, tentando mal e mal recompor a blusa rasgada. Percebeu confusamente que o sinal verde se acendera, o homem com o bolo já havia atravessado a rua e a aguardava do outro lado. Enfiou o cordão e a pombinha na bolsa dependurada no braço e foi ao seu encontro, ainda ofegante:

– O senhor me desculpe, mas viu só aquele descarado tentando me assaltar?

–Bem, eu...

–Me deu um puxão assim, olha aqui – ela passou a mão pelo pescoço: – Acho até que me machucou. Está saindo sangue?

–Não: está só um pouquinho arranhado.

Ela se deu conta da situação o seu tanto extravagante, o desconhecido ali pouco à vontade, com o bolo nas mãos:

–O senhor me desculpe — repetiu.

– A senhora é que me desculpe ter atravessado a rua. Mas com todo mundo atravessando, fiquei com medo de que esbarrassem em mim e o bolo acabasse caindo.

Acrescentou com um sorriso:

– Confesso que fiquei com medo também de sobrar para mim.

Ainda nervosa, ela tentou corresponder ao sorriso – parecia um homem distinto:

–E para minha filha – explicou, apontando o bolo: – Faz dezoito anos amanhã.

É isso mesmo... Estou vendo aqui escrito. A senhora não parece ter uma filha de dezoito anos.

Desta ela gostou:

– Bondade sua – e abaixou os olhos. Ao fazê-lo, deu com o estrago da blusa, tentou de novo arranjá-la: – Olha só o que aquele desgraçado me fez.

Ainda bem que ficou só nisso – e ele lhe entregou o bolo.

–- Muito obrigada por sua ajuda. – Não quer que eu a acompanhe? – Muito obrigada. Moro aqui perto.

Permita-me que eu me apresente.

Trocaram apresentações, descobriram que moravam na mesma rua, tinham amigos em comum.

– Mas que coincidência.

–Pois o senhor está convidado a vir comer um pedaço deste bolo.

Ele agradeceu o convite, faria tudo para comparecer.

– Então muito prazer — ela arrematou, em despedida.

– O prazer foi todo meu — respondeu ele, com uma mesura, e estendeu-lhe a mão.

Ela estendeu a sua, o bolo vacilou na outra mão e caiu, esborrachando-se no chão entre os dois.

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