Coluna: "O Homem e a Fábula", Jornal do Brasil, 12/12/1961.

Lassidão; vontade quebrada; assim um homem de coração turbulento ingressa numa segunda-feira luminosa e farfalhante. Conforme prometi em crônica publicada há uma semana, a sensação geral é de convalescença; as chuvas se foram, e, agora, vejo acácias que se movem no vento; cumpri meu dever e espero que todos estejam aproveitando a bela manhã que encomendei ao verão. Quanto a mim, tudo está florido na minha alma.

Sábado houve libações e danças na taverna chamada Zum Zum. Enamorei-me da moça de perfil etrusco. Domingo, perdi-a; telefonei para diversas pessoas e fiquei sabendo que subiu a serra. Talvez nunca mais a veja; talvez; porém, retenho à flor dos olhos a sua delicada imagem, o seu sorriso, o pescoço longo de pele muito fina; sinto-me um pouco mais solteirão.

Uma borboleta amarela esvoaça entre as folhas nas quais o vento murmura, acentuando o ar de crônica de Rubem Braga que estas palavras possuem. Que posso fazer? Não tenho tempo para ser original: estou a contemplar, aqui no íntimo, aquela imagem que, por sua vez, me contempla por trás dos meus olhos; a quem interessar possa, troco todas as estrelas do céu por um novo encontro com essa moça.

Vejam como o amor faz um homem ficar generoso! Como se renuncia facilmente a todas as constelações e fenômenos cósmicos, incluindo cometas por descobrir! E se não for bastante, Destino, concedo os peixinhos que estão no mar a quem me der notícias da referida; e se isto ainda não satisfizer o caprichoso acaso, abro mão do crepúsculo que ateará fogo às nuvens no dia 23 de março de 1962, e que eu estava guardando, justamente, para levar a minha esquiva namorada à beira do mar, ocasião em que lhe ofertaria algumas conchas e consentiria que o vento soprasse docemente os seus cabelos...

Deus meu, como certos sentimentos fazem um homem ficar bobo!

jose-carlos-oliveira