Periódico
Correio da Manhã

Seção "Imagens do homem".

 

Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond

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O Filósofo já me dissera: “Vou do Leme ao Leblon a pé e, às vezes, não me satisfaço; então, volto a pé do Leblon ao Leme, e sinto-me em plenitude”.

Mas o Filósofo tem músculos educados no esporte, além de ter a filosofia, que o acompanha. Vão os dois em diálogo peripatético, ele em seu passo largo, ela no seu voo. Eu não tenho dama de companhia.

Do Leme ao posto seis, a viagem é proporcionada aos recursos menores de que disponho. A meta é visível, a curva da praia dá ilusão de proximidade. O caminho reto, no mar, não levaria tempo. Contudo, sinto que é tempo de desperdiçar tempo, e nenhum veículo dará transporte igual ao dos pés, ambiciosos de marcha.

Tomar a calçada entre a rua e a praia, que não se interrompe nas esquinas, e permite criar um ritmo pessoal e constante. A outra calçada é um andar na rua, entre percalços, sinais verde-vermelhos, dispersão. Esta é um andar em mim, por mim, comigo. Caminho particular, que se desdobra lateralmente até onde o navio some e o farol pisca; do outro lado, vou registrar o latejar dos homens, sem subordinar-se a seu império. Entre mar e terra, um homem exerce a felicidade do movimento, só, descompromissado, na noite que o envolve.

Passam carros, com a pressa que têm de se verem livres de dirigentes e passageiros. Corrida para o sono e a morte, a recomeçar amanhã e todos os dias, pois a morte e o sono recuam sempre, só atendem a uns tantos para se furtarem a muitos. Que sentido tem uma parte da cidade esvaziar-se para intumescer outra parte? Migração interna da fome, do cansaço ou do amor, a desenvolver-se em sentido inverso daqui a poucas horas. Andar a pé, no flanco dos motorizados, dá uma imprevista calma.

Os edifícios ao longo da avenida têm espessura cenográfica, luzes são ensaiadas sem método, borrões de sombra ocultam áreas onde devia representar-se uma peça mágica, mulheres de tom violeta ou solferino bruscamente aparecem e engolfam-se na penumbra, brotam cães imensos, lucilam joias rápidas, saltos de sapato, perfumes, vozes estrangeiras na viração de peixe e sal.

Nada, porém, distrai o andar-a-pé do homem, que com o simples andar-a-pé se confirma em sua soberania perante as coisas. Cada bar que ele ultrapassa, mais do que uma província conquistada sem luta, é uma presença afável a saudá-lo. Não há prazer fútil em sentir-se apto para maior avanço. O ato de andar vale por si mesmo, sublinha o entendimento do corpo com o que se costuma chamar de espírito, e naquele vigia e sofre.

Que sofrimento não se diluiria na brisa soprada de um país distante, que já abafou tantos outros em seu volteio? Que indivíduo será bastante inquieto e narcisista para romper o equilíbrio entre o ser e a natureza, que a marcha lhe vai oferecendo? E, enquanto oferece, lhe dá uma paz maior que a do pensamento concluído ou do fruto maduro?

O andar-em-mim do princípio, tão leve se fez que agora é um andar fora e acima de todos os mins pontiagudos, feridos, desarvorados, que a vida ia acumulando. Amendoeiras e jogos infantis do posto seis desabrocham como um continente. Chegar, e sua plenitude.

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